A vergonha dos colégios militares

tumblr_mjgjrmcmbW1rs5pmyo1_500[1]Fernanda Câncio, uma jornalista longe de consensual, escreve esta semana sobre os anacrónicos e dispendiosos colégios das Forças Armadas: o Colégio Militar e o Instituto dos Pupilos do Exército. Duas escolas de luxo, praticantes do ensino “à antiga” e em concorrência desleal, porque pagos pelo contribuinte, com os colégios mais elitistas. E é difícil não concordar com ela.

Pois este ensino que não se paga a si mesmo também não consegue incorporar os valores e as leis da sociedade democrática e do Estado de direito: a discriminação, a violência física e psicológica, as praxes abusivas e outras barbaridades parecem de tal forma incorporadas no seu código genético, que as escolas militares já não parecem ter emenda: o remédio é acabar com elas.

Que sucederia a qualquer colégio privado no qual se denunciassem ciclicamente atos de violência por parte de alunos mais velhos sobre mais novos, ritualizados por via de uma “tradição” aceite e promovida pela respetiva direção? E se soubéssemos que nesses episódios de bullying – os conhecidos – um aluno de 10 anos teve o tímpano perfurado, ou que, como denunciado esta semana, outro, da mesma idade, foi parar ao hospital devido a queimaduras e “golpes de cinto”? Exigir-se-ia, no mínimo, uma inspeção do Ministério da Educação para apurar responsabilidades e, no máximo, o encerramento da escola, certo?

Certo. Mas há dois colégios em Portugal, nos quais se leciona o ensino básico e secundário, onde isto se passa e nada acontece – nem se põe fim à tal “tradição”, nem as direções são responsabilizadas, nem se põe em causa o “modelo educativo”. E de encerrá-los nem falar. Aliás, estes dois estabelecimentos de ensino são os únicos nos quais a Inspeção-Geral da Educação não entra a não ser que para tal “convidada” – é o Ministério da Educação que o afirma (em resposta de maio de 2016, ao DN), e é provável que mesmo o MP se sinta pouco à vontade para os investigar.

E a jornalista relembra tentativas recentes de adaptar as instituições aos tempos modernos, obrigando-as a admitir jovens dos dois sexos e alunos com necessidades especiais e a respeitar as diferentes orientações sexuais, que redundaram em campanhas inflamadas em defesa do tradicionalismo castrense nestes colégios e em directores a demitirem-se em protesto.

[…] a discriminação, a exclusão, a ausência de espírito democrático são o ADN destas escolas, cujo modelo é o do privilégio de casta – tão típico do espírito castrense. É, afinal, o Portugal velho, do Estado Novo, que ali está, naquelas regras e naquela atmosfera, preservado como num museu; é a ideia de que se pode continuar a fazer as coisas “à antiga”, porque “aqui mandamos nós”.

Escolas que desconhecem os direitos humanos e a Constituição, que só mudam à força e onde as mudanças são muitas vezes apenas de fachada, para que lá por dentro, de onde raramente escapam denúncias, tudo continue na mesma – quando haverá coragem para acabar com isto?

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