Complicações à volta de uma greve de professores

professores.jpgDizem-nos que os professores não devem fazer greve aos exames, porque prejudicam os alunos. Numa rede social li, até, que professor que não entende isto não é digno de ser professor.

E o problema é que nós ficamos a matutar em frases como esta, e a alimentar problemas de consciência: estaremos realmente a prejudicar irremediavelmente os nossos alunos, ou apenas a usar meios legais para defender os nossos direitos, algo que, diga-se de passagem, mais ninguém poderá fazer por nós? E mais, ao dar um exemplo de dignidade e cidadania com a nossa luta, não estaremos também a educar os nossos alunos?

Sabendo-se que todas as greves causam transtorno, e por isso mesmo só se recorre a elas quando as vias negociais estão bloqueadas, o que é pior: alterar a data de um exame por uns dias ou adiar uma consulta ou cirurgia programada para daí a umas semanas? Médicos e enfermeiros fazem greves quando entendem que as devem fazer, e apesar de cumprirem os serviços mínimos causam prejuízos e transtornos a muitas pessoas. E isso causa o alarme social que, a propósito dos professores, se tenta criar?

A preocupação excessiva com o que a opinião pública pensa dos professores é algo que não se nota muito noutras profissões: se estão seguros da sua razão, usam de todos os meios ao seu alcance para conseguirem o sucesso das suas lutas, independentemente dos prejuízos que causem a terceiros. E, curiosamente, havendo coerência, coragem e determinação, estas classes profissionais acabam por ser mais respeitadas do que aqueles que se mostram incapazes de se unir e lutar pelos seus direitos.

Entre os professores, sabemos que também não podemos fazer greve à sexta-feira, porque demonstramos que só queremos é aproveitar para ganhar um fim-de-semana prolongado. E acatamos.

A meio da semana também não, que quebra o ritmo.

E no início do período também não pode ser, que ainda não se entrou no ritmo.

A meio do período nunca, que há muitos testes.

No final do período nem pensar, que é preciso fazer as avaliações.

Nas férias lectivas até dava, pois não se prejudicam os alunos. Não sei como ainda ninguém se lembrou de propor.

Mas a minha desculpa favorita é a dos colegas que não fazem a greve de um dia porque acham que greve de uma semana é que era. No mínimo. Ou então, por tempo indeterminado.

Do lado oposto, estão os que não fazem mais do que um dia de greve, porque perdem muito dinheiro.

E há sempre os que não fazem greve alguma, porque se os sindicatos querem greves então façam-nas eles.

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