Greve aos exames e sindicalismo docente

20080308-manif-professores5[1]As greves anunciadas pelo pequeno e pelo grande sindicalismo docente motivaram dois posts inspirados de Paulo Guinote. Mas se a ironia e o sarcasmo amenizam a leitura e põem a nu as insuficiências e os limites dos sindicatos que temos, nem sempre nos dão a percepção clara do contexto das “lutas” e do que realmente está em causa.

Começando pela constatação óbvia, a de que os sindicatos de professores são muitos, e perseguem agendas próprias, nem sempre coincidentes com o que realmente querem os professores, interessa perceber que isso acontece porque favorecer a pulverização sindical foi durante muitos anos uma aposta clara do poder político para enfraquecer o poder reivindicativo dos professores, um grupo profissional numeroso e com elevadas taxas de sindicalização.

Quanto às federações sindicais, e começando pela Fenprof, a mais activa e representativa, e também o principal alvo das investidas anti-sindicais, é importante compreender que ela não é simplesmente o “braço sindical do PCP”  junto dos professores, como por vezes é caracterizada, embora o seu líder, Mário Nogueira, seja militante do partido. Mas os comunistas estão em minoria nos órgãos dirigentes da federação, consequência óbvia de nem o SPGL, nem o SPN, os dois maiores sindicatos que a compõem, terem, ao contrário do SPRC de Nogueira, direcções dominadas por professores afectos ao PCP.

Assim, muitas decisões e indecisões da organização, posições dúbias ou contraditórias, erros de avaliação ou de timing, decorrem de a Fenprof ser, efectivamente, uma organização plural, onde se defrontam diferentes tendências e pontos de vista. Que reflectem, a par dos posicionamentos político-sindicais, as naturais divergências que também encontramos em qualquer sala de professores.

Menos activa mas mais homogénea, a FNE tem demonstrado ao longo dos anos que a organização de grandes acções de luta não é a sua praia, mostrando-se sempre mais disponível para a negociação e, sempre que possível, o desenvolvimento de relações privilegiadas com o poder político.  Mais evidente, mas muito menos falada do que a presença do PCP na Fenprof, é a subordinação clara da FNE à agenda política do PSD, partido a que são afectos os principais dirigentes.

Também é interessante seguir a sequência da convocação das greves após as reuniões com o ministro no passado dia 6.

Os pequenos sindicatos, provavelmente antecipando o imbróglio da “greve aos exames”, e querendo também demarcar-se da iniciativa dos “grandes”, escolheram o dia 14, quando ainda há aulas a decorrer, para marcar a sua greve.

A FNE, interessada em dificultar a vida ao governo, e mostrando nessa vontade um empenho que nunca teve em quatro anos de governo da sua cor política, com vontade também de abanar a “geringonça” na área educativa, reafirmou a realização da greve a 21 de Junho.

Claro que, neste campeonato para mostrar serviço, a Fenprof acabou também por convocar a greve que, no fundo, ninguém deseja.

E ninguém quer esta greve sobretudo pelas razões que já ontem enunciei: a abrangência dos serviços mínimos relativamente aos exames, da falta de preparação para a luta e de consenso entre os professores e uma provável hostilidade da opinião pública, factor ao qual muitos professores acabam por ser altamente sensíveis.

O problema é que o governo, respaldado nos êxitos recentes da política económica e na popularidade do seu líder, empenhado na consolidação orçamental e no protelar da devolução de direitos e rendimentos, tarda em dar resposta às reivindicações dos professores.

Quanto a estes, a verdade é que, como alguém já escreveu, se não é difícil estarem de acordo naquilo que querem, assim que se trata de decidir formas de luta e agir em conformidade, logo irrompem as divisões.

 

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