Problemas de uma greve anunciada

murro-na-mesa.gifAssinalei ontem o “murro na mesa” dos sindicatos de professores que, condescendentes com o estado de graça do actual governo e conscientes da situação do país, têm contemporizado com o adiamento dos problemas dos professores e a falta de compromissos para a sua resolução.

Mas se o anúncio da greve funciona como expressão clara do descontentamento da classe docente, o dia seguinte mostra-nos que a concretização pode ser bem mais complicada do que à partida se possa pensar. Por três ordens de razões:

1. A regulamentação dos serviços mínimos obriga a assegurar os exames e provas marcados para o dia 21.
Incluídos entre as “necessidades sociais impreteríveis” por uma alteração legislativa do tempo do governo de Passos Coelho, os exames e provas de aferição não poderiam ser afectados, bastando por isso ao governo convocar legalmente os professores necessários para a realização das provas, para esvaziar o impacto da greve.

resultado-sondagem-greve-dos-exames.jpg2. Os professores estão divididos quanto à oportunidade desta greve.
Como acabam de demonstrar os resultados de um inquérito aos leitores do blogue ComRegras, maioritariamente professores, que se dividem praticamente a meio quando lhes é perguntado se concordam com a realização da greve. Ora, independentemente da justeza das razões, será contraproducente uma forma de luta que, em vez de unir os professores, os divide.

3. A opinião pública voltar-se-ia contra os professores.
No final de um ano lectivo calmo em termos de lutas laborais e sindicais, a maioria dos cidadãos não iria entender uma greve surgida, aparentemente, “do nada”, e com prejuízos directos para os alunos. Por outro lado, os exames nacionais continuam a ser muito valorizados socialmente, e as pessoas tendem a aceitar mais facilmente as greves em dias de aulas, apesar das perdas e transtornos que provocam, do que o adiamento de um exame que não se faz por motivo de greve.

Mudam os tempos e as pedagogias, mas no inconsciente colectivo a importância do professor que examina ainda prevalece sobre a do que professor que ensina.

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6 thoughts on “Problemas de uma greve anunciada

  1. 1- Mesmo que assim seja e qq que seja o resultado, já é positivo.
    Em termos legais, esta “necessidade social impreterível” tem muito que se lhe diga.
    Adiem os exames/provas para outro dia…..têm 2 semanas para isso.

    2- A oeste nada de novo. Tirando a questão dos titulares e mais uma ou outra situação, sempre foi assim.

    3- A sério, com a crítica da opinião pública posso eu bem.

    Lembrei-me agora de uma frase da drª Assunção Cristas que li há tempos num qq jornal. Achei-a tão surpreendente que a escrevi na agenda e passo transcrever:

    ” Não é a pessoa que deve ser ajustada ao trabalho, mas sim o trabalho à pessoa e às suas circunstâncias específicas de vida.”

    E esta, hem?

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    • As “necessidades sociais impreteríveis” num caso destes são uma limitação abusiva do direito à greve. Claro que o exame que não se faz num dia se pode fazer noutro e os problemas que isto coloca são meramente burocráticos, não põem em causa direitos dos alunos. O problema é que as questões jurídicas nestas matérias são sempre longas e os processos judiciais que delas possam decorrer de resultados incertos. E isso torna-se desmobilizador…

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  2. Certíssimo , António Duarte. Convinha, contudo, que algum jurista viesse a terreiro esclarecer o que – neste caso muito particular dos exames – se entende por “serviços mínimos”. Se for na CP sabemos: consiste em fazer circular um certo número de comboios .E nos exames? Que os exames se realizem apenas nas escolas A ,B ou
    C ?

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    • Parece que querem fazer valer a conhecida teoria de que, em educação, serviços mínimos são serviços máximos.
      Na prática é a negação do direito à greve, fruto de uma alteração legislativa da maioria de direita que o actual governo do PS não enjeita.

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  3. Não percebo porque andam a discutir o assunto ” serviços mínimos” quando isso não interessa.
    O que está em cima da mesa é uma greve e mais nada.
    Os professores têm razão ou não?

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    • O que está em cima da mesa não é só a greve, é haver professores que a façam.
      Se por causa dos serviços mínimos ou de outra desculpa qualquer a greve for um fiasco, então mais vale estar quieto.

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