Competências digitais

computer[1]As escolas do segundo ciclo podem candidatar-se, a partir desta segunda-feira, a um projecto que visa formar em programação Scratch 5000 alunos e 500 professores, para promover a igualdade de oportunidades na área digital.

Promovido pela SIC Esperança, em parceria com a associação espanhola Ayuda en Acción e a Google.org, o projecto GEN10S Portugal, apresentado nesta segunda-feira em Lisboa, visa “reduzir o fosso nas competências digitais e promover a igualdade de oportunidades na área digital entre os mais novos, reduzindo as barreiras socioeconómicas e de género”.

Noto alguma ligeireza na forma como se anunciam estes projectos na “área digital”.

Quer-se parecer pós-moderno, esclarecido, em cima do acontecimento, mas na verdade anda-se apenas, muitas vezes, a correr atrás de modas passageiras, quando não atrás do prejuízo.

E depois há coisas que não batem certo.

Para começar, a confusão entre “competências básicas”, que é o que se costuma chamar a informática na óptica do utilizador, e a programação, que entra no campo dos conhecimentos avançados. E que até é uma área interessante, estimulante e com elevada empregabilidade – mas passar o nível lúdico das abordagens ao nível do 1º e do 2º ciclo não é para todos.

É um erro pensar-se que com uma formação rápida transformamos uns milhares de jovens desmotivados e de desempregados de longa duração em bons programadores. E pior ainda será andar a vender essas ilusões a quem tem pouca apetência pela área.

Depois, se é preciso promover as “competências digitais” no 2º ciclo, porque é que as TIC só surgem no currículo, de uma forma sistematizada, no 7º ano de escolaridade?

Não faria sentido introduzir mais cedo esta área enquanto disciplina autónoma, apostando mais, ao nível do 3º ciclo, que é o que tem a maior sobrecarga curricular, na integração das TIC no trabalho das restantes disciplinas? E há quantos anos se fala nestas coisas?

Este projecto que agora se anuncia apenas para algumas escolas pode ser interessante e motivador. Pode ter todas as qualidades que lhe quiserem apontar. Mas não se pode dizer, de uma iniciativa que existe apenas para algumas escolas, que vai promover a “igualdade de oportunidades” ou reduzir “fossos”. Uns alunos vão beneficiar, outros não. Pode ser uma boa oportunidade para alguns. Mas não é para todos, nem sequer para a maioria.

Ora o que se espera de um governo com um pensamento estratégico para a educação é que pense nos problemas, oportunidades e desafios à escala de todo o país. Que trabalhe para todos e que em vez de perder tempo a apadrinhar iniciativas locais, encostando-se ao trabalho alheio, desenvolva uma política educativa de âmbito nacional, com apostas claras em prioridades bem definidas.

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