Intervenção precoce, um tapa-buracos?

Não vamos ser brandos nas palavras: isto é uma indignidade!

Família.pngO Ministério da Educação quer atribuir os horários da intervenção precoce aos professores com “horário zero” (sem componente letiva) ou colocados em mobilidade por doença.

Ou seja, no próximo ano letivo, um professor de Matemática ou Inglês do Secundário, numa destas situações, apesar de não ter qualquer formação específica, pode ser colocado no apoio domiciliário a crianças até aos seis anos portadoras de deficiência ou sinalizadas como em risco devido a graves atrasos no desenvolvimento.

A intervenção precoce é um serviço altamente especializado, que deve ser prestado por professores de Educação Especial devidamente capacitados. Não pode ser atribuída, como um qualquer apoio ao estudo, ao primeiro professor que tenha horas livres no horário, preterindo-se docentes com formação específica para a tarefa.

Percebe-se a tentativa de aplicar um critério de racionalidade económica, aproveitando milhares de professores com insuficiência de componente lectiva em vez de recorrer a mecanismos de mobilidade que implicarão mais contratações. Mas esta é, claramente, daquelas situações em que não se podem sobrepor os critérios economicistas às mais elementares boas práticas pedagógicas.

A intervenção precoce é geralmente considerada como uma das medidas mais eficazes de combate ao insucesso escolar. Para ter sucesso, precisa que se continue a investir na qualificação de professores nesta área e na valorização do seu trabalho, em articulação com os técnicos da segurança social, das autarquias e das comissões de menores.

A rentabilização de recursos humanos nas escolas portuguesas, sobretudo naquelas onde a mobilidade por doença tem permitido que se acumulem dezenas de professores sem horário, é outro problema, de outra natureza, que deve igualmente ser resolvido, mas não prejudicando as crianças mais novas e o seu direito à educação.

Espera-se agora que, perante as críticas convergentes de directores escolares, sindicatos de professores e especialistas em educação especial, haja o bom-senso de emendar o erro, resistindo à tentação de matar dois coelhos com a mesma cajadada. Uma má solução para os professores, para as escolas e sobretudo para as crianças e as famílias que mais necessitam de apoio nunca deverá ser uma solução aceitável para o ME.

Anúncios

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s