Para que serve a Escola

escola-sec-xxiNem sempre acompanho Paulo Guinote nas suas críticas de alto a baixo ao novo “paradigma educativo” que ameaça cair-nos em cima. Mas a clareza demolidora do que ontem escreveu, a propósito da avalanche de educações para a cidadania e saberes-fazer que nos últimos anos tem invadido a escola, ajuda-nos a assentar ideias e a desconstruir a recorrente demagogia em torno da “escola do século XIX”:

[…] em outros tempos, […] era em sociedade e na família que se aprendia como trabalhar a terra, guiar uma carroça, ir à pesca, caçar, até brincar. E a “Escola” no seu modelo contemporâneo foi criada exactamente para ensinar aos indivíduos o que não era possível aprenderem em casa ou no seu ambiente social mas que lhes era necessário para acederem ao que agora se chamam “competências superiores” e a novas funções relevantes para a sociedade e a economia. A Matemática, as Ciências, a História, a Geografia, a Filosofia, são disciplinas que fazem parte do “núcleo duro” do currículo porque para o ensino é necessário mobilizar um saber que não se encontra sempre na cozinha, na sala, na rua ou nos centros comerciais d’agora ou mesmo nas fábricas e oficinas d’outrora.

A Escola surgiu da necessidade de ensinar aos indivíduos os que os métodos e ambientes tradicionais não conseguiam. Não para ensinar o que lhes agradava ou interessava numa visão imediatista. Em boa verdade, surgiu para ensinar coisas chatas, daí haver quem preferisse não lá colocar os pés e ir lavrar.

Os grandes avanços do conhecimento humano, no fundo tudo aquilo que fez da nossa espécie o que somos hoje, resultaram dessa coisa chata de fragmentar o saber em diferentes disciplinas, para podermos estudar mais proveitosamente cada uma das partes antes de as religarmos com o todo. O trabalho de projecto, a interdisciplinaridade, podem ser eficazes tanto para motivar a aprender como para integrar e aplicar o conhecimento adquirido. Não me parece que sejam, na maioria das situações, a melhor forma de aprender de modo sistemático, organizado e consistente.

Nem a escola existe para amarrar o aluno ao meio em que vive ou àquilo que conhece e de que gosta. Ainda que partindo do concreto e da realidade próxima, ela cumpre a sua função mostrando que há mais mundo para além dos “saberes” que já adquiriu no seu ambiente social e familiar. Ninguém gosta do que desconhece, e há muitas coisas boas na vida de que é preciso aprender a gostar antes de verdadeiramente as apreciar.

Os saberes não valem todos o mesmo, por muito que os relativismos culturais se tentem impor. Um tratamento homeopático não vale o mesmo que uma vacina. A defesa do criacionismo não deve ter o mesmo “tempo de antena” que o ensino do evolucionismo. E uma mentira não deixa de ser uma mentira, mesmo que envolta em meias-verdades ou promovida à categoria recém-criada dos factos alternativos.

Uma boa parte das educações ditas para a cidadania são na verdade projectos ideológicos mal disfarçados que tentam formatar a agenda educativa ao sabor dos interesses e das modas do momento. Por exemplo, em vez de educação financeira ou para o empreendedorismo, deveria, isso sim, estudar-se obrigatoriamente Economia num dos anos da escolaridade obrigatória.

E a propósito do “saber-fazer”, temo que a escola que dizem ser a do “século XIX” nem isso seja capaz de ensinar. Vejo nas salas multicoloridas, com as cadeiras de rodinhas e os gadgets por todo o lado, um ambiente demasiado limpinho e asséptico, onde não há espaço nem oportunidade para realizar uma experiência de Química, fazer germinar um feijão, produzir um cartaz. Afinal de contas, se “está tudo no google”, para quê perder tempo a fazer seja o que for, se já tudo foi feito e está ali ao alcance de um clique? Para quê viver a vida, se a podemos ver desfilar à nossa frente, comodamente recostados no nosso gadget favorito de última geração, com banda larga e super-alta resolução?

Temo que a escola dita do século XXI, se chegar a vingar, não produza mais do que uns xoninhas incapazes de dar outro uso às mãozinhas além do deslizar de dedos pelos ecrãs. E demasiado frágeis para moverem uma mesa ou até a cadeira onde se sentam se elas não tiverem rodinhas.

 

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