Insucesso escolar – o estudo da EPIS

professora-alunosO estudo da associação de empresários foi encomendado a uma equipa de investigadores – todos eles ex-governantes e dirigentes ministeriais da Educação no tempo de Sócrates – e foca-se no problema número um da educação portuguesa, na perspectiva do actual governo: o elevado insucesso escolar, em especial nos primeiros anos do ensino básico.

Os autores do estudo Aprender a Ler e a Escrever em Portugal começaram por identificar aquilo a que chamam as escolas do insucesso: escolas do 1º ciclo onde há uma taxa de insucesso superior a 33% no 2º ano ou maior que a média nacional em todos os anos de escolaridade. Verificaram que elas são cerca de 14% do universo de escolas do 1º CEB mas, algo surpreendentemente, não se circunscrevem apenas ao interior pobre e desfavorecido ou aos guetos suburbanos: grande parte são escolas urbanas de Lisboa e do Porto.

Viciados na fabricação dos consensos promovidos pelos “tanques-de-pensar” e as organizações internacionais como a OCDE, tentando criar em torno da educação um pensamento único como já existe na economia globalizada e neoliberal, percebe-se que “faz espécie” aos ex-governantes que haja professores no 1º ciclo que, ousando pensar pela sua cabeça, não olhem para o insucesso dos seus alunos da mesma forma que os teóricos e os académicos. É que a experiência que levam lhes diz coisas diferentes das “evidências” proclamadas pelos estudos e pelos especialistas internacionais:

Para 87% destes docentes, a retenção tem vantagens, mesmo em idades tão precoces como os sete anos. Esta opinião prevalece apesar de muitos dos inquiridos reconhecerem que a retenção implica riscos como a desmotivação e o desinteresse dos alunos. Feitas as contas acabam por considerar que a repetência é “única alternativa”, porque “dando mais tempo as crianças acabam por aprender e recuperar”, afirmam os autores do estudo da EPIS […]. Segundo os autores do estudo, o problema do insucesso e das dificuldades de aprendizagem está assim “naturalizado” nestas escolas – “nada há a fazer a não ser aceitar isso mesmo e conformar as práticas pedagógicas a essa realidade”.

Aliás, muitos destes professores não têm problemas em admitir que, se fosse possível, reprovariam os alunos logo no 1º ano. E identificam claramente o principal motivo das retenções em idades precoces: “por não lerem bem e não terem atingido os objectivos estabelecidos no programa no que respeita à leitura e escrita”, responsabilizando igualmente as famílias que “não valorizam nem acompanham a vida escolar do aluno, por razões socioeconómicas e culturais”.

Perante as evidências, não se torna difícil à equipa liderada por Lurdes Rodrigues repetir o que esta fez durante todo o seu mandato de ministra, e que nela surge com toda a naturalidade : culpar os professores e as escolas pela “normalização dos chumbos”, pela cultura do insucesso e da retenção que vai persistindo nas escolas portuguesas.

A verdade é quando os professores decidem, e nunca o fazem de ânimo leve, reter um aluno, é na convicção de que ele não está preparado para progredir nas aprendizagens do ano seguinte e precisa de mais tempo para entender e consolidar aquilo que deveria ter aprendido. Fazemos o que achamos que é melhor para o aluno, numa altura do ano em que a alternativa a reprovar é passar sem saber.

Os professores não ignoram que, com turmas mais pequenas, maior flexibilidade na organização de horários, apoios, coadjuvâncias e outras medidas que permitam prevenir e actuar sobre os factores do insucesso, o número de “chumbos” poderia diminuir. Que com melhores condições sócio-familiares, muitos miúdos aproveitariam muito melhor a escola e o que ela lhes pode proporcionar. Mas nem sempre está nas nossas mãos proporcionar aos alunos o que eles realmente necessitam, e quem o poderia fazer está demasiado ocupado a contar os tostões que é ainda possível poupar na Educação para pagar o próximo resgate bancário.

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