A verdadeira diferenciação pedagógica

Lê-se a entrevista do DN à fundadora da Park International School e antevê-se uma escola inacessível a 99% dos Portugueses, mas que segue o modelo que as elites mais cosmopolitas do país desejam para os seus filhos. Aqui a verdadeira diferenciação pedagógica faz-se pela capacidade económica dos pais, que querem que os seus filhos sejam “líderes”, num mundo “sem fronteiras” e aceitam pagar mensalmente, pela escola de cada um, bem mais do que um salário mínimo nacional.

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Apesar da recente partilha de despojos com chineses, angolanos e outros capitalistas globais, com ou sem pátria, há uma casta de donos disto tudo que continua a dar cartas, e até nos apelidos dos empreendedores notamos como o capital dos bancos falidos que agora andamos todos a pagar se reciclou nos novos empreendimentos onde as elites se reinventam.

“Desde que criei o Park – com dinheiro que tinha, uma ajuda da família e de amigos e algum financiamento bancário – que pensei que não queria abrir o capital. Acabei por dar uma posição acionista à Marta (Villarinho), mas nós estamos juntas desde o início e complementamo-nos perfeitamente, portanto fazia sentido. Mas agora (em 2015) achei que tinha mesmo de o fazer se não queria ficar limitada ao 6.º ano. Era ficar ali ou abrir o capital e crescer sem medos.” E não foi preciso pensar muito: entregou uma fatia do negócio a um fundo de private equity gerido pelo Menlo Capital, que permitiu o encaixe financeiro necessário para responder à pressão dos pais para alargar o colégio ao secundário (o plano ficará completo quando os miúdos atualmente no 7.º lá chegarem) e criar a primeira escola internacional de Lisboa. “E tivemos imensa sorte com os sócios que encontrámos” – bem como com a parceria estabelecida com o Imofomento, do BPI, fundo que detém todos os edifícios onde funcionam as escolas e a quem os sócios do Park pagam uma renda.

[Um] colégio que, apesar de relativamente recente, está cotado entre os melhores do país. Onde a alimentação dos miúdos resulta de uma parceria com a Go Natural e eles são ensinados, além do que é vulgar aprenderem na escola, a pensar e a questionar o mundo, com a ajuda de programas inovadores como o My Time, em que, sob proposta dos professores, têm a oportunidade de brilhar no que mais gostam de fazer – tenha ou não ligação direta com o que estão a aprender. Ou o Big Idea, em que se juntam em grupos de dez ou doze, de idades diferentes, para propor uma resposta a perguntas abertas como “para que servem as cores” ou “explica matematicamente a tua escola” – projetos que vão desenvolvendo uma manhã por semana e para cuja conclusão têm todos os professores disponíveis para ajudar e todo o material que possam querer, de papel higiénico e plasticina a impressões 3D.

“Os miúdos vivem aqui numa bolha e se não os preparamos para o que há além dessa bolha não vão ser felizes. Por isso é tão importante essa parte, que passa por lhes mostrarmos que têm de ser cidadãos do mundo, de conhecer diferentes culturas, de aceitar diferentes pontos de vista e de ser responsáveis.” Nessa lógica, o Park construiu um programa notável que passa por dedicar determinado número de horas curriculares – dependendo do ciclo educativo – a um programa de fellowship em que são ensinados a ajudar dentro da escola, na comunidade e no mundo. “Eles é que escolhem, mas podem por exemplo ir ter com a senhora da cozinha para lavar pratos, ou atender telefones.” O serviço à comunidade passa este ano por irem ensinar os velhotes de um lar vizinho a mexer no iPad e os miúdos de uma escola próxima a usar os smart boards oferecidos pelo Park. E na sua versão mais ampla o programa escolhido para este ano foi o Girl Rising, promovido por uma ONG que quer despertar consciência para as muitas raparigas que ainda não vão à escola.

De resto, o projeto educativo do Park funciona na lógica da maioria das escolas: até ao 1.º ciclo há um professor que só fala português e outro que só fala inglês em cada sala; do 1.º ao 6.º ano são seguidas as metas do Ministério da Educação, com aulas em português (Língua Portuguesa, História e Matemática) e em inglês (alguns temas de Estudo do Meio, Ciências, Educação Física, Música, Artes, Tecnologias…), e a partir do 7.º é seguido o programa de Cambridge com o ensino a passar todo para a língua inglesa. Mas com uma preocupação acrescida pela aprendizagem da História, da língua e da cultura portuguesas – que implica um aumento da carga horária mas que Bárbara considera essencial para manter as raízes.

“No fim das aulas, nós levamo-los ao Belenenses, ao CIF (ténis) ou ao Holmes Place (natação) e os pais só têm de os ir buscar ao final da tarde, o que é uma facilidade para eles.

Resta apenas uma questão: quanto custa ter um filho na escola que Bárbara de Beck constrói diariamente? “Cerca de oito mil euros por ano”, responde de imediato.

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