O ensino bilingue em Espanha

bilingue.jpgVem de longe a proverbial a dificuldade do povo espanhol em falar e compreender línguas estrangeiras. Ainda que já se notem, num país largamente vocacionado para o turismo, grandes progressos a este nível, subsistem, sobretudo na população mais idosa e menos escolarizada, grandes dificuldades de comunicação com os estrangeiros. Algo que cada vez mais os Espanhóis vêem como uma desvantagem comparativamente a outros países.

E se para grandes males grandes remédios, nos últimos anos ganhou terreno uma solução que os seus defensores pensam ser um verdadeiro ovo de Colombo para tornar os Espanhóis fluentes em Inglês, usando a língua de Shakespeare com o mesmo desembaraço com que falam e escrevem em Castelhano ou nas várias línguas regionais que com ele coexistem no país vizinho: o ensino bilingue.

O ensino bilingue é praticado em diversos colégios, geralmente privados, e consiste na utilização do Inglês, não só nas aulas desta disciplina, mas também em Matemática, Ciências, História, ou outras. Leccionar metade do currículo em Inglês, sobretudo sendo feito logo a partir dos primeiros anos de escolaridade, permitirá familiarizar as crianças com a língua inglesa de tal forma que a passariam a usar, no quotidiano, quase como uma segunda língua materna.

Na verdade, e a avaliar pelo que os professores vão relatando e comentando, as coisas não estão a correr tão bem como se pensava.

Para começar, é sempre mais difícil, para um aluno espanhol, aprender em Inglês, pelo que os alunos com dificuldades de aprendizagem evitam as classes bilingues, que tendem a ser frequentadas sobretudo pelos bons alunos. Isto está, na prática, a promover a segmentação dos públicos escolares, servindo a opção pelo ensino bilingue para criar escolas de bons e maus alunos. E nota-se sobretudo nas escolas públicas que recebem muitos alunos provenientes de meios desfavorecidos, ou com necessidades especiais ou outros problemas de aprendizagem, que vêem os restantes fugir para outras escolas, atrás do prestigiante ensino bilingue.

Mas nas escolas bilingues as coisas também nem sempre resultam como se esperaria. A verdade é que não é exactamente a mesma coisa explicar uma matéria de alguma complexidade, usando a língua materna, ou recorrendo ao Inglês. Mesmo supondo que os professores de Matemática, de Física ou de Biologia têm um domínio quase perfeito do Inglês, o que nem sempre sucede, eles terão de adequar o seu nível de língua à capacidade de compreensão dos alunos. E isso resulta em aprendizagens mais pobres do que as que se conseguiriam se fosse usado o Espanhol. Constata-se que mesmo os melhores alunos, que assistem sem problemas às aulas leccionadas em Inglês, não desenvolvem todo o seu potencial como sucederia se aprendessem as matérias mais complexas na língua que melhor dominam, e que é a que aprenderam a falar em pequenos.

Ao contrário do que sucedeu em Portugal, onde os resultados dos testes PISA de 2015 foram considerados animadores, em Espanha isso não sucedeu, e a necessidade de melhorar as respostas educativas e os resultados escolares continua na ordem do dia. O ensino bilingue é uma tentativa nesse sentido, mas as realizações parecem ainda longe de corresponder às expectativas.

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