O bom aluno da OCDE

tiagobrandaorodrigues-leiria“Claro que há muitos professores e directores que ouvem os seus estudantes diariamente. Mas quando se trata de o fazer de forma estruturada, com o objectivo de incorporar os seus contributos na definição das políticas e práticas educativas, ainda é um fenómeno raro”, explicou ao PÚBLICO o director do Departamento de Educação e Competências da OCDE, Andreas Schleicher.

O Ministério da Educação apelidou a iniciativa como “A Voz dos Alunos”. O encontro decorreu em Leiria, em Novembro, e reuniu dezenas de alunos do 1.º ciclo ao ensino secundário, de vários pontos do país. Agora, a OCDE pretende replicar o projecto noutros países e, com esse objectivo, vai promover nesta terça-feira o seu lançamento internacional em Lisboa, durante a sessão de abertura de mais um encontro dos peritos da organização no âmbito do programa Educação 2030. Esse programa tem como objectivo conceber novos currículos escolares de modo a responder a um mundo em constante mudança e à aquisição de competências consideradas indispensáveis “para a formação dos cidadãos do século XXI”.

O que defenderam os alunos reunidos, por iniciativa do ME, para discutirem a revisão curricular, foi em larga medida aquilo que já se aguardava que dissessem, e que veio ao encontro das intenções reformistas do ministério: mais aulas práticas, trabalhos de grupo, experimentação e visitas de estudo, mais atenção à cidadania e às artes, maior flexibilidade nos currículos e menos compartimentação nas áreas de estudo. Os alunos querem também turmas mais pequenas e professores mais atentos às necessidades e motivações de cada um.

A OCDE integrou a audição dos alunos nas boas práticas previstas no seu programa para a educação e vai procurar convencer outros países a seguir o exemplo de Portugal. O director para a área da Educação elogia também o novo perfil do aluno, que corresponde em larga medida às competências-chave definidas pela OCDE para o século XXI. E deixa uma dica acerca do que ainda temos de fazer para melhorar o nosso sistema educativo: “Os resultados do PISA mostraram que os estudantes portugueses se tornaram bons na reprodução dos conteúdos. Mas ficam ainda aquém quando se trata de extrapolar aquilo que sabem de modo a aplicar os seus conhecimentos em novos contextos. E isto é cada vez mais importante.”

Elogios à parte, resta saber até que ponto devemos seguir, acriticamente, as avaliações e as recomendações da OCDE, uma organização demasiado comprometida com os grandes interesses económicos e os princípios ideológicos do neoliberalismo para aceitarmos de ânimo leve a bondade, a neutralidade e a tecnicidade das “políticas públicas” que tenta impor à escala global.

Na educação, como em tudo o resto, haverá sempre escolhas a fazer e falsos consensos que é necessário desconstruir. Sobre isso se continuará a falar e a escrever, também por aqui.

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