Heterodoxias: Fátima nunca mais

3-pastorinhosOs meus estudos sobre Fátima dizem que, para explicarmos Fátima e a religião sacrificial que lá se faz, é preciso recuar no tempo, não apenas a 1917, 13 de Maio de 1917, mas muito mais atrás. É preciso recuar – imaginem – até antes do nascimento de Maria e de Jesus, até antes do aparecimento do Cristianismo! É preciso recuar ao tempo das religiões pré-cristãs, às religiões pagãs que, antes do Cristianismo, proliferavam no Império romano. E aos cultos que se realizavam em redor de grandes e luxuosos santuários, erguidos em honra de divindades femininas, deusas todo-poderosas. Cultos e procissões, com andores enormes onde seguia a imagem da deusa, e que eram transportados por homens vigorosos, tal como em Fátima hoje acontece, e noutros santuários ditos marianos (deveria dizer-se santuários da deusa), ou de santas mais ou menos lendárias e que mais não são do que restos dos cultos dessas deusas ou divindades pré-cristãs.

[…]

Curioso é que também em redor desses santuários e das imagens das deusas, se criaram relatos de milagres, de curas mira­culosas, todos da mesma maneira e segundo o mesmo esquema. Não é que esses milagres alguma vez tivessem acontecido de facto. Todos faziam de conta que sim. Havia os relatos e isso bastava para dar ânimo aos pobres. O que esses relatos contavam não havia acontecido nunca, mas só o facto de estar escrito e de ser proclamado aos quatro ventos pelos sacerdotes da deusa, nos dias das peregrinações de massas, tinha um efeito consolador nos pobres, nos oprimidos, nos sofredores, nos marginalizados. Eram relatos que alimentavam, não a esperança – esta traduz-se sempre em combate pessoal e colectivo contra as causas históricas dos diversos sofrimentos humanos – mas a ilusão dos pobres. E os pobres, quando nem de esperança são capazes, agarram-se, em desespero de causa, a ilusões, como se elas fossem esperança. Pelo menos, enquanto dura a ilusão, já não desesperam de todo. Nem se suicidam.

Mas sejamos claros: o que é preciso não é alimentar as ilusões dos pobres. O que é preciso é discernimento e audácia para descobrir por que é que há pobres, por que é que há tanto sofri­mento humano, tanta miséria, tanta doença por tratar, tantas listas de espera nos hospitais, tanto desemprego, tanta toxicodependência, e depois, atacar as causas de todos esses males.

Alimentar as ilusões dos pobres é alimentar a pobreza, é cometer mais um crime contra os pobres, é enganar os pobres. E isso é uma afronta. Uma indignidade. Mas isso é o que faziam as imagens das deusas (como a Senhora de Fátima, hoje, também elas não viam, não ouviam, não falavam, não comiam, não sofriam, não choravam, não mexiam, não andavam, mas, entretanto, devo­ravam a vida e os bens dos seus devotos, na pessoa dos sacerdotes-administradores dos respectivos santuários). E isso é o que, ainda hoje, se continua a fazer em Fátima, e em tantos outros santuários por esse país e mundo fora.

Milagres, nunca houve. Nem haverá. Seja em Fátima, seja em Lurdes, seja noutro santuário qualquer. Pelo menos, milagres no sentido que o nosso povo lhe dá, algo espectacular, tipo milagre do sol, atribuído à deusa de Fátima, em 13 de Outubro de 1917.

Quando se avança com relatos de milagres, de feitos extra­ordinários realizados, não por seres humanos, mas por divindades, nunca é Deus que está por trás como seu autor. Pelo menos, do Deus que se nos revelou em Jesus Cristo e Maria de Nazaré. Este é Aquele/Aquela de quem Maria conta que intervém na História, através dos seres humanos e de acontecimentos históricos, e sempre para derrubar os poderosos dos seus tronos e exaltar, erguer, os oprimidos e esmagados, para deixar de mãos vazias os ricos exploradores e encher de bens os pobres e famintos.

Ou seja, o “milagre” que Deus realiza consiste, segundo o Evangelho de Jesus, em libertar do medo os oprimidos, acabar com a pobreza dos pobres, restituir a dignidade perdida e roubada aos desprezados, numa palavra, consiste em tomar mais humanos os seres humanos, todos os seres humanos, a começar pelos últimos dos últimos.

Só as deusas e os deuses das religiões pré-cristãs – ídolos que o povo tomava como Deus – é que são capazes de se sentir honrados com os sacrifícios do povo, com o triste espectáculo do povo a carregar com andores, sobre os quais vai uma imagem incapaz de andar pelo seu pé, com o espectáculo do povo a andar de joelhos e a rastejar e, no fim, a deixar todo o seu dinheiro ao santuário, para que os que o administram engordem, enriqueçam, se tornem poderosos, arrogantes, prepotentes, numa palavra, grandes senhores!

Porque é muito isto que ainda hoje se faz em Fátima, temos de concluir que a Senhora de Fátima não é Maria, mãe de Jesus, mas uma antiga deusa pré-cristã que sobreviveu todos estes anos de Cristianismo – dois mil, ao todo!

Padre Mário de Oliveira, Fátima Nunca Mais (1999).

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