Convenceu-me. Quanto custa a cadeirinha?

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O director do Agrupamento Fernando Casimiro, em Rio Maior, está a construir, segundo nos dizem, a escola do futuro. A entrevista ao jornal O Mirante, conjuga, misturadas com evidências em relação às quais todos estaremos de acordo, algumas ideias erróneas, demagógicas e manipuladoras sobre o presente e o futuro da educação que espero nunca me cansar de denunciar.

Ficam as afirmações do director Paulo Almeida que merecem a minha discordância, seguidas do respectivo contraditório.

A realidade da sociedade que temos hoje não passa pela necessidade de a escola transmitir conhecimentos.
A abundância de informação disponível online não dispensa a escola de transmitir uma base de conhecimentos aos alunos. E, não, nem tudo está na internet.

O conhecimento é de tal maneira alargado que o desafio é gerir e manipular o conhecimento.
Querem ver que agora os miúdos vão todos para políticos?

Sou da ideia de que numa aula de 90 minutos o professor não deve falar mais de 15 minutos.
Eu sou da ideia de que deviam acabar as aulas de 90 minutos.

Os professores devem ser gestores de informação e gerir é fazer opções. Quando um professor me diz que não tem tempo para dar tudo o que está no programa sinto-me preocupado.
Quando se eliminam conteúdos por falta de tempo para a sua leccionação o que está mal não é a gestão do professor, é a extensão do programa ou o número reduzido de tempos semanais que são atribuídos à disciplina. Ou ambos.

Hoje temos uma aprendizagem centrada no professor. Temos a sala de aula num modelo de autocarro, tudo em filinhas, que vem da altura da revolução industrial, em que as pessoas eram formadas para estarem em linhas de montagem.
Nunca percebi onde foram buscar essa imagem idiota. As escolas nunca formaram operários para as linhas de montagem, que eram em muitos casos analfabetos. Historicamente, a escola contribuiu, talvez mais do que qualquer outro factor, para que os filhos dos operários pudessem ambicionar um destino diferente do dos seus pais. Formando-os, neste caso, para não terem de ir para as linhas de montagem.

Daqui a 10 ou 15 anos as pessoas têm de ser promotoras do seu próprio emprego.
Todo um programa ideológico mal disfarçado nesta afirmação. Só será assim se nós quisermos e basta pensar um pouco para perceber que esse não é um modelo sustentável no mundo actual. Acho lamentável que pessoas com empregos públicos “para a vida” e ordenado certo ao fim do mês continuem a ser os principais arautos do empreendedorismo. Que é bom, mas só para os outros.

Andámos a gastar milhões em escolas e o único sítio onde não intervieram foi dentro da sala de aulas, que deve ser flexível. Colocamos mobiliário pesado, fixo, e não nos podemos adaptar à realidade. O espaço deve ser maleável, com mobiliário que se possa movimentar rapidamente.
A maior parte do investimento público nas escolas foi direccionado para as salas de aula. Ou em equipamento, como computadores e projectores de vídeo, ou em infraestruturas destinadas a melhorar o conforto e a funcionalidade: redes informáticas, aquecimento central, etc. As vulgares mesas e cadeiras são leves e fáceis de movimentar; as rodinhas em vez de pés são apenas um pormenor, mas se com isso entramos no século XXI, vou já propor a compra das cadeiras com rodinhas.

Neste momento temos uma aprendizagem igual para todos e nem todos aprendem da mesma forma e à mesma velocidade, e isso traz desmotivação.
Há uma contradição insanável entre ambicionar uma escola onde ninguém fique para trás (combate ao insucesso) e ao mesmo tempo cada um aprenda ao seu ritmo: inevitavelmente, os que aprendem mais depressa distanciam-se dos mais lentos ou mais imaturos.

As escolas deviam [ter] autonomia para contratarem os professores. Entrámos num projecto de inovação pedagógica com uma equipa e este ano há concurso nacional para colocação de professores. Possivelmente metade da equipa pode sair e lá vamos ter de recomeçar do zero.
É sempre difícil perceber como é que directores tão dinâmicos e projectos tão bons não conseguem motivar e reter os professores que, sendo do quadro da escola, só concorrem para de lá sair porque querem. Mas entendo que os projectos correm melhor quando são feitos por pessoas escolhidas à medida daquilo que se quer fazer. Pessoalmente, continuo a ambicionar um modelo de escola que funcione com todos os tipos de professores e todos os tipos de alunos.

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6 thoughts on “Convenceu-me. Quanto custa a cadeirinha?

  1. Não sei por onde começar. Fico-me com esta:

    “Sou da ideia de que numa aula de 90 minutos o professor não deve falar mais de 15 minutos.”
    Melhor ainda seria o professor cumprimentar e despedir-se dos alunos.

    Ou com esta, mais profunda:

    “Daqui a 10 ou 15 anos as pessoas têm de ser promotoras do seu próprio emprego.”

    O carácter de obrigatoriedade/normatividade do “têm de ” , expresso ao longo do texto, baralha um pouco por ser inversamente proporcional a flexibilidades e a diferenciações .

    Resumindo, não há mais paciência para isto.

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  2. A entrevista está repleta de incoerências. Por exemplo, é contra o mobiliário pesado na escola mas depois quer sofás para estarem todos sentados confortavelmente.

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  3. …se .o quadro negro é do séc XIX, porque não um estrado de madeira? (até pode ser giratório para ser mais moderno)

    Também não sei se o cromático da decoração se adequa ao séc XXI…..

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  4. O mais fascinante são as cadeiras, sem dúvida.
    Um motorzito naquele espaço livre em baixo e um volante e até podiam brincar aos carrinhos de choque quando a aula estivesse a ser uma seca…

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  5. “O conhecimento é de tal maneira alargado que o desafio é gerir e manipular o conhecimento.”
    Que frase tão absurda e pretensiosa! … Sócrates (o filósofo) nesta acepção deveria ser um ignorante…
    A tristeza e a miséria deste país vem, mesmo, de hordas de dirigentes deslumbrados, vaidosos, cheios de si e de nada mas com poder!

    “Daqui a 10 ou 15 anos as pessoas têm de ser promotoras do seu próprio emprego.”
    Duvido que o sr saiba como compaginar isto com qualquer organização económico-financeira e social conhecida ou eventualmente previsível… tanto mais num mundo de globalizações/ competitividades/ dominações e especulações crescentes…
    Enfim, o homem deve ser um defensor já não das micro-empresas (prontas a falir em menos de um ano) mas sim de umas yocto-empresas (com ciclo de vida mais reduzido que a maioria dos insectos)…

    … quando se compra “banha-da-cobra”, é o que se tem para vender…

    O problema é que estão a submergir as escolas com isto e mais uma vez os fundos europeus (portugal 2020) canalizados para coisas destas …para daqui a 20 anos voltarmos (isto é, continuarmos) a lamentar o desperdício e má utilização dos dinheiros… e a continuidade na cauda da europa (as pro-actividades e empreendedorismos, por estas bandas, costumam ser muito “clientelo-familiares”)

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