Difícil é pô-los a ler

oliveira-martins.JPGO ex-ministro das Finanças e da Educação Guilherme d’Oliveira Martins desafiou nesta terça-feira os professores a combaterem os “resumos” de obras literárias e a porem as crianças a ler escritores de língua portuguesa para melhorar o domínio do idioma.

“Guerra aos resumos”, defendeu Guilherme d’Oliveira Martins, numa conferência na cidade do Porto, considerando que os resumos das obras literárias são “uma praga” e que terão de ser os professores a ter a “preocupação muito grande” de pôr os “alunos a ler os textos originais”.

Houve um ex-ministro da Educação socialista que, já depois da passagem pelo governo, declarou, a propósito dos alunos portugueses, que “difícil é sentá-los”. A frase fez sucesso e foi inclusivamente título de um livro.

Pois se já na viragem do milénio as coisas estavam assim, não é de admirar que, agora, com a proliferação de ecrãs com todo o tipo de bonecada e imagens em movimento, seja ainda mais difícil pô-los a ler, como reconhece outro ex-ministro do PS. Leituras integrais de clássicos da literatura portuguesa, ainda por cima.

Até concordo com Oliveira Martins: os resumos dos livros de leitura obrigatória na disciplina de Português são mesmo uma praga. Mas não nasceram da iniciativa dos professores, nem nenhum profissional da educação consciente, julgo eu, os recomendará aos seus alunos. Mas a verdade é que os livrecos existem, são fáceis de encontrar à venda e eventualmente terão mais saída, no mercado dos livros escolares, do que as obras integrais.

Vivemos no tempo da facilidade e do imediatismo. E se o gosto pela leitura continua a estar presente em novas gerações de leitores, também é um facto que a percentagem de pessoas que não lê livros regularmente está a aumentar, sobretudo entre os mais novos, absorvidos pelos gadgets tecnológicos. Mas também se nota nas gerações mais velhas, onde a televisão de muitos canais e o omnipresente facebook ocupam o tempo e tiram a disposição para a leitura.

Contudo, se é fácil concordarmos com a  necessidade de pôr os jovens a ler, fazendo-os (re)descobrir o gosto pela leitura, já é mais difícil perceber, no tempo das aprendizagens feitas com prazer e ao gosto e ao ritmo de cada um, de que forma é que isso se faz. Desafortunadamente, também não é o discurso redondo e prolixo de Oliveira Martins que nos vem esclarecer.

Da mesma forma que é mais fácil ver os bonecos do que ler palavras difíceis, também é incomparavelmente mais simples, aos tudólogos do regime, dizerem aos outros o que fazer, em vez de mostrarem, eles próprios, como se faz.

A cada um o seu facilitismo.

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