Leituras: Europa, o continente perdido

Raptus_Europae.pngApesar de todos os esforços no sentido de preservar a História, o passado vai ficando para trás. São poucos os que restam da geração que assistiu à barbárie que assolou o continente [europeu]. A ameaça de guerra desapareceu. A paz é tida como um dado adquirido. A guerra-fria aca­bou. Para os países que saíram de regimes autoritários, a União Europeia foi um farol de democracia. Contudo, esses períodos deci­sivos situam-se no passado.

Hoje, a Europa procura um novo discurso, uma nova causa que inspire um continente cada vez mais céptico. A luta pela salvação do projecto europeu está a conferir poderes acrescidos a Bruxelas, mais por necessidade do que por opção. Na era da austeridade, há gruas por todo o lado no bairro europeu da cidade, que se expande, apesar dos tempos difíceis que se vivem noutros locais. A UE acredita em si pró­pria e no seu destino óbvio. O credo é «uma união cada vez mais estreita». No entanto e a despeito de tudo isso, os edifícios denun­ciam uma certa insegurança. São sólidos, funcionais e burocráticos. Falta-lhes ambição e ousadia. O edifício Justus Lipsius, com o seu labirinto de corredores, é atarracado. A luz quase não entra nele. É fe­chado sobre si mesmo. Não há aqui nenhum Edifício Chrysler, a exa­lar confiança. Nem um Empire State Building, a erguer-se bem alto e a definir a linha do horizonte.

Não é esse o estilo da Europa, que não é dada a alardes e cons­trói o seu sonho com discrição. Os pais fundadores existem, mas os seus nomes são praticamente desconhecidos. Schumann tem direito a uma rotunda e a uma estação de metro. Monnet e De Gasperi têm direito a uma placa ocasional. A sua missão era salvar o continente dos seus instintos destrutivos. Não era defender nem promover a liberdade individual. Era criar instituições que tomassem a guerra impossível. Os fundadores e os seus sucessores acreditam na clarivi­dência dos escolhidos, dos guias: os funcionários públicos que se for­mam em escolas de excelência. No fundo, continua a ser um projecto de elite, concebido por alguns para todos os outros.

Numa altura em que precisa de ajuda, o projecto europeu enfrenta uma crise de legitimidade. A cada nova eleição, são cada vez menos as pessoas que se dão ao trabalho de votar para o Parlamento Europeu. As sondagens indicam que, ao mesmo tempo que a União Europeia vai adquirindo mais poder, os seus cidadãos perderam o entusiasmo pelo sonho ou passaram a ser-lhe indiferentes. Segundo uma sondagem do Eurobarómetro, realizada em finais de 2012, apenas 30% dos europeus têm uma visão positiva da UE. É uma per­centagem inferior aos 52% de há apenas cinco anos. As pessoas já não são crentes por instinto: querem apenas empregos e segurança. Avaliam a Europa menos pelos seus desígnios grandiosos e mais por aquilo que esta é capaz de proporcionar.

Gavin Hewitt, O Continente Perdido (2013)

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