Insucesso escolar no 2º ciclo

Em cada dez alunos que frequentam o 6.º ano de escolaridade, três não conseguem ter nota positiva a Matemática. Uma tendência que se começa a notar logo no quinto ano, onde um em cada quatro também é reprovado à disciplina.

O Inglês é a disciplina que se segue em termos de dificuldade com, respetivamente, 15% e 14% de chumbos no quinto e sexto ano.

Os dados constam do Estudo “Resultados Escolares por Disciplina – 2.º ciclo do Ensino Público”, realizado pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), e referem-se ao ano letivo de 2014-15, que antecedeu a entrada em funções do atual governo.

O estudo, publicado no site da DGEEC, está bem elaborado e apresenta, de forma clara, um grande manancial de informação. Claro que não vai muito além do que quem lida com este nível de ensino conhece empiricamente: há cinco disciplinas que distribuem pelos alunos quase todas as “negativas” que são atribuídas e outras cinco (falta EMRC no gráfico) onde as classificações inferiores a três são residuais.

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Mas há duas coisas importantes que o estudo clarifica. Continua a haver uma forte correlação entre a condição económica dos alunos e o insucesso, com os alunos do escalão A a terem mais “negativas” do que os do escalão B, e estes a serem menos bem sucedidos do que os não beneficiários do apoio da ASE. E ao contrário do que acontece na maioria das disciplinas, onde os alunos repetentes têm melhores resultados do que no ano anterior, em Matemática a repetição, para muitos, parece não funcionar: continuam, apesar de estarem a estudar a mesma matéria pela segunda vez, a obter resultados insatisfatórios.

Claro que, perante isto, interessaria questionar as mudanças no programa da disciplina, que a maioria dos professores considera desajustadas ao nível etário dos alunos, inexequíveis e potenciadoras do insucesso e do desinteresse pela disciplina. Mas o ministério, em comentário a este estudo, prefere não ir por aí, enveredando antes por uma interpretação que me parece algo tendenciosa e retorcida dos resultados:

Num comentário a estes dados, o Ministério da Educação considerou que “a elevada taxa de classificações negativas a Matemática, associada a uma menor capacidade de recuperação nesta disciplina, sustenta a ineficácia da retenção e, sobretudo, a necessidade de agir aos primeiros sinais de dificuldade, como tem vindo a ser incentivado sobretudo nos anos iniciais de ciclo, no Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar”. O gabinete do ministro Tiago Brandão Rodrigues sublinhou ainda “a persistência da correlação entre baixo nível socioeconómico e baixos desempenhos escolares”, defendendo que esta confirma a necessidade da gestão flexível que pretende implementar nas escolas, de forma a que “se possa gerir o currículo de forma adequada a cada contexto”.

Está certo que se pretenda apostar na intervenção precoce, prevenindo e atacando as causas do insucesso, em vez de tentar tardiamente remediar o que já corre mal há algum tempo. Mas quando as medidas preventivas falharam ou não foram sequer implementadas, o que se deve fazer?

Permitir que os alunos passem de ano sem terem aprendido o que deveriam, porque toda a retenção é perniciosa e inútil?

Ou, em vez de mexer nos programas como se impõe, incentivar as escolas a uma “flexibilidade” que ponha de lado os conteúdos “difíceis”, criando um ensino de primeira e outros de segunda ou terceira categoria, em nome da adequação ao “contexto”?

Se assim pensam, seria bom que o dissessem claramente.

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One thought on “Insucesso escolar no 2º ciclo

  1. Qual intervenção precoce, qual carapuça… isso sai caro… é muito mais barato (pelo menos no imediato) passá-los de ano que afinal todos têm direito ao sucesso.
    A não ser que seja intervenção precoce tipo: o miúdo não consegue aprender a subtracção: então arranja-se uma tutoria com outros 9 alunos com problemas (não necessariamente os mesmos problemas que o que está a dar é a proactividade para a diversificação aliada à polivalência das estratégias)… a coisa ainda subsiste, põe-se o puto num projecto tipo “educação para o número”, … ainda não? – envie-se a criança para apoio com o prof. de mandarim (que é o gajo que não tem o horário completo)… bolas, também não resultou? – envie-se para a psicóloga que lá arranja 45 minutos por mês para encaixar a criança… ainda não??? – siga-se a avaliação e integração no ensino especial, com um currículo próprio (adequado aos seus interesses e capacidades) em que deixa de precisar saber subtrair… problema ultrapassado. PIM

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