O bom colonialismo

escravos.jpg“Os Portugueses traziam de África ouro, escravos, marfim e malaguetas – produtos de grande valor.” A frase está num manual atual do 6.º ano. É mesmo assim, como “produtos”, sem qualquer referência adicional, e sem se tratar de uma citação de época, que as pessoas escravizadas são descritas num livro para crianças de 10 anos. No mesmo manual, há duas imagens com escravos, reproduções de gravuras. Numa vê-se um homem negro, de nádegas e pernas nuas, a ser chicoteado perante uma multidão; noutra estão outros negros, nus, com os pés presos entre duas tábuas. A legenda é: “Maus-tratos aos escravos”.

Será a este tipo de conteúdos que as investigadoras Marta Araújo e Sílvia Maeso, do Centro de Estudos Sociais, se referem, na sua análise dos manuais escolares, quando falam da “institucionalização do silêncio”, da “naturalização das relações de poder e violência” e da “trivialização” no que se refere à escravatura no ensino da história em Portugal.

É antiga e persistente a ideia de que o colonialismo português foi benigno, sobretudo se comparado com o de outros povos. Que a escravatura e o tráfico de seres humanos feito pelos Portugueses reproduziram práticas que já existiam no continente africano, que eram amplamente aceites no seu tempo e que foram usadas, na colonização da América, por todos os países europeus. E que em vez de erigirem sociedades de apartheid, os Portugueses se misturaram com todos os outros povos, sendo precursores, com séculos de antecedência, das sociedades multiculturais dos nossos dias.

Há alguma verdade nestas afirmações mas, como em tudo, convém não exagerar e, sobretudo, interessa contextualizar: os Portugueses foram menos racistas do que outros europeus, mas isso não quer dizer que o racismo não existisse. Significa apenas que o desnível cultural era menor e que o reduzido número de colonos, espalhados por paragens distantes, tornava inevitável a integração e a miscigenação.

É perigoso alimentar o mito de que nunca fomos racistas e, pior ainda, de que o racismo não existe na nossa sociedade. Mas parece que ainda hoje se tende a ir por esse caminho, até mesmo ao nível da alta cultura e da investigação académica, como confirma o depoimento desta investigadora:

“Começou-me a parecer que a história e o ensino da história são palcos fulcrais das lutas políticas e em 2006 submeti um projeto à Fundação para a Ciência e Tecnologia que não foi aprovado. O que se pretendia na altura era perceber que narrativas estão condensadas nos manuais.” Já não era a primeira vez que uma investigação relacionada com estes temas era chumbada: “Em 1997 disseram-me explicitamente, na FCT, o racismo não é um problema em Portugal e portanto não teria financiamento. E ainda em 2011 o júri disse que olhar tão para trás na história não não é uma forma sensata de trazer o progresso.” Mas em 2007 acabaram por conseguir o financiamento necessário. A ideia inicial era perceber como a questão racial era tratada nos manuais, mas depois evoluímos para a análise da abordagem da escravatura.”

Após a Revolução de Abril e a descolonização, tornou-se comum, embora nunca tivesse penetrado em profundidade no currículo escolar, uma visão negativa do colonialismo português, associada à escravidão, à exploração dos recursos naturais das regiões conquistadas, à submissão dos povos e à destruição das suas culturas e modos de vida.

Contudo, este negativismo não prevaleceu por muito tempo: o Portugal dos anos 80, desejoso de se reencontrar consigo próprio, de sanar os traumas da descolonização e de reconstruir a sua identidade europeia, criou o conceito de “encontro de culturas” para definir a grande epopeia dos descobrimentos e da expansão comercial e marítima. Grandes eventos como a XVII Exposição Europeia de Arte, Cultura e Ciência, realizada em Lisboa em 1983, difundiram esta ideia politicamente correcta, que ainda hoje tende a prevalecer nos programas e nos manuais de História, e que dissolve fenómenos incómodos como a escravatura, o genocídio e submissão e a aculturação forçada dos povos dominados sob a capa de um grande “encontro de culturas” do qual todos, em última análise, vieram a beneficiar.

E escreve-se hoje sobre o tráfico de escravos com a mesma ligeireza com que se fala do comércio da pimenta ou da introdução do milho americano na agricultura europeia. É a “circulação de produtos”, ou são quando muito “movimentações de povos” – como se fosse a mesma coisa emigrar livremente em busca de melhor vida ou ser acorrentado no fundo de um porão para ir viver uma vida de escravo do outro lado do Atlântico:

“Em 2003, lia-se num manual que “escravos africanos negros eram levados à força para o território americano”; na versão de 2008 do mesmo manual, a frase passou para “ocorreram movimentações de povos – de emigrantes europeus e de escravos africanos sobretudo para a América”.”

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3 thoughts on “O bom colonialismo

  1. A única coisa que tenho por certa é que o racismo português, que existiu, foi em geral menos assumido, mais dissimulado.

    De resto, tendo sido o império português o primeiro a formar-se e o último a desaparecer, também tivemos mais tempo para entrosar com os nativos…

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