Um retrato da pobreza

classes-populares.jpgCompreender e explicar a pobreza em Portugal, em especial os mecanismos que a produzem e perpetuam numa das sociedades europeias com mais desigualdade social, é o que procuram fazer Francisco Louçã, João Teixeira Lopes e Lígia Ferro no novo livro lançado esta semana – As Classes Populares.

Em entrevista ao Público, João Teixeira Lopes, sociólogo e militante do Bloco de Esquerda, defende que a pobreza, não só está a aumentar em Portugal, como se acentuou com a vinda da troika.

Dois terços da população enquadram-se naquilo a que podemos chamar as classes populares, isto é, [pessoas que têm] profissões subalternas, de execução, precarizadas, ligadas a rendimentos baixos. Nós temos hoje uma sociedade fortemente polarizada, em que as classes médias claramente empobreceram e se mostram instáveis. Aquela ideia de que nos transformamos num país de classe média, devido à educação ou a outros mecanismos de elevador social, não se verifica de todo. Pelo contrário, vemos, desde logo pela distribuição do rendimento e por aquilo que são as relações de trabalho e a forma como foram alteradas no período da troika, um forte empobrecimento de largas franjas da população.

Desemprego estrutural elevado, precarização do trabalho, baixos salários: eis a receita para o esmagamento das classes médias, que obriga as novas gerações a conformarem-se com rendimentos muito inferiores aos dos seus pais, forçando os jovens a manterem-se indefinidamente na casa paterna, adiando projectos de vida autónomos. E, pior que tudo, conformando-se com essa situação.

Ao mesmo tempo, recrudescem o discurso moralista e a acção assistencialista sobre a pobreza: é preciso vigiar os pobres e castigá-los sempre que se mostrem preguiçosos ou relapsos no cumprimento das suas obrigações.

[…] as classes populares não se reduzem aos pobres, mas a pobreza é uma franja significativa das classes populares, em particular porque a pobreza é flutuante: as pessoas que hoje não são pobres mas que podem vir a sê-lo e as pessoas que já foram ou deixaram de o ser mas que podem voltar a sê-lo. Portanto, a vulnerabilidade à pobreza em Portugal é altíssima. E as instituições de solidariedade social adoptam com estas pessoas um discurso altamente paternalista, moralizador e punitivo em relação aos maus pobres. E com isto acabam por subalternizar ainda mais estas pessoas, como se fossem umas crianças grandes, recebendo ralhetes, reprimendas, vendo o seu subsídio ser cortado se porventura um qualquer acto burocrático falhou. Esta normalização do pobre, do assistido, é um dos aspectos mais visíveis nas classes populares hoje em dia, esta visão punitiva que vai no sentido de manter os pobres dentro dos trilhos, domesticados.

Noutras épocas, e apesar de menos instruídas, as classes baixas acabavam, mais tarde ou mais cedo, por tomar consciência da sua condição de explorados. Paradoxalmente, os jovens cultos, instruídos e cosmopolitas dos dias de hoje, os tais que têm “o conhecimento na palma da mão” graças ao omnipresente telemóvel, parecem ser mais facilmente iludidos sobre a sua situação do que eram antigamente os mineiros, os jornaleiros ou os operários. Teixeira Lopes explica-o muito bem:

Há uma grande margem de conformismo. E o consumo cultural serve para integrar e para fornecer essa base de conformismo. A ideia, hoje tão presente nos novos media, de que a sua voz é escutada, a sua participação desejada, contribuí para criar uma ilusão de que se é escutado e tido em conta. São mecanismos que facilitam o exercício da dominação. Até as formas de organização do trabalho que parecem não hierarquizadas (coworking, partilhar espaços, trabalho por objectivos em ambientes aparentemente descontraídos…) fornecem muitas vezes a ideia de que a pessoa se está a realizar pessoalmente ou de que tem pelo menos essa hipótese e de que não é oprimida. A exploração é neste caso muito mais subtil e menos à flor da pele, até porque, pela socialização, estes jovens vão incorporando este tipo de situação como aceitável, normal ou pelo menos sem alternativa.

A terminar a entrevista, o autor recusa fazer futurologia e antever como irá evoluir uma sociedade demasiado desigual para ser estável e coesa a longo prazo. Será que os jovens se irão cansar e revoltar com a precariedade e a subalternização, rompendo as amarras da sujeição? Ou o sistema capitalista conseguirá, como tantas vezes no passado, desmobilizar as críticas e a revolta? O que parece evidente é que a perda de rendimentos acaba por retrair o consumo, impedindo, a prazo, o crescimento económico. Nada de novo, é a situação que há uma década estamos a viver.

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