Namoros violentos

ciclo-violencia.JPGO DN publicou ontem uma extensa e bem documentada reportagem sobre violência no namoro, com especial incidência nas novas gerações. Quando há estudos que indiciam que os jovens de hoje desculpabilizam comportamentos violentos no namoro com base em ideias de há 50 anos, haverá certamente muito trabalho a desenvolver pelas escolas, as famílias e as instituições que lidam com a violência no contexto das relações afectivas. E é importante, antes de mais, conhecer e perceber bem o fenómeno.

O ciúme como prova de amor e o dever de ninguém se meter entre marido e mulher são precisamente as frases com as quais concordam os alunos da Escola Básica Adriano Correia de Oliveira, em Avintes, no concelho de Vila Nova de Gaia, numa sessão de sensibilização promovida pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) do projeto Art”Themis (ver entrevista). Numa turma do 8.º ano, na aula de Educação para a Cidadania, jovens maioritariamente de 13 e 14 anos são chamados a tomar partido perante determinados comportamentos e mitos. A sala é dividida entre quem concorda e não concorda, lado para o qual se deslocam sempre que há uma afirmação, para debater e justificar.

Mais do que fazer sermões ou prelecções, é importante colocar os jovens a debater os problemas, a analisar diferentes perspectivas, a colocar-se no lugar do outro, a interpretar o que está por trás de comportamentos inaceitáveis mas que, em determinados contextos, acabam por assumir uma certa normalidade.

“Ter ciúmes significa que as pessoas gostam umas das outras.” Numa turma de 17 alunos, apenas seis discordaram. Com a discussão sobre o assunto junta-se mais um aos “sins”. “Os ciúmes não dão para controlar.” “Ter ciúmes é uma coisa automática.” “Imaginem que tenho uma namorada … se a vir aos abraços a outro rapaz vou ter ciúmes.” Uma voz discordante faz–se ouvir mais alto: “É mentira, ciúmes significa falta de confiança!” “Nem sempre”, responde outro, explicando que “às vezes é pelo que a outra pessoa faz, ou não faz”.

Combater a violência no namoro é uma tarefa de toda a sociedade. Além das organizações da sociedade civil que se dedicam ao problema, das autoridades policiais, das escolas e dos tribunais, a família tem um papel essencial a desempenhar. E muitas vezes falha, por exemplo quando agressores e vítimas reproduzem padrões de violência e de submissão que apreenderam no seu próprio ambiente familiar. Ou quando os pais simplesmente não acompanham a vida dos filhos nem se apercebem dos seus problemas:

Só que os mais novos não falam destes assuntos com os adultos, nomeadamente com os pais. “Os jovens têm tudo no quarto, a internet, o computador. E, em pleno século XXI, verificamos que as raparigas continuam a não contar às famílias que namoram, continuam a ter os mesmos comportamentos de há décadas, o que ajuda o agressor. Entre os 12 e os 17 anos, o grande medo é a solidão, os adolescentes jovens têm medo de ficar sozinhos, de não terem um grupo e vão aguentando a situação. Pensam: “Se o meu namorado ou namorada pertence ao meu grupo, o que vai acontecer se eu acabar, vou ficar sozinha?” Por outro lado, explica o psicólogo, “há uma desvalorização dos comportamentos de violência, há muita violência envolvida e há muita dificuldade em sair da situação”.

A verdade é que na quase totalidade dos casos, terminar a relação é mesmo a única forma de pôr fim à violência. As desculpas, as juras de amor e as promessas de mudança normalmente são apenas o reinício de um ciclo que rapidamente descamba em novas agressões. E quanto mais tempo se andar nisto, mais difícil será a saída e maiores serão as sequelas físicas e psicológicas.

“Chegou a uma altura em que me batia sempre. Primeiro era porque eu respondia. Deixei de responder e ele sempre a bater. Ele não bebia nem usava drogas. Simplesmente é uma pessoa agressiva, resolve as coisas aos murros e pontapés. Bateu em dois vizinhos. Nunca desconfiei, se tivesse desconfiado não me juntava.” Agressões, físicas e verbais, perseguição e controlo em todos os locais, também o telemóvel e as redes sociais. “Passei muito tempo sem trabalho porque quando arranjava ele encontrava maneira de eu sair.”

Durou cinco anos, Maria está há cinco meses numa casa de abrigo, finalmente em segurança. É que, antes, fugiu tantas vezes que até perdeu a conta. “Ia para a minha mãe, ele ia buscar-me, não me largava. Também não fazia sentido dar trabalho à minha mãe, além de que ela também recebeu ameaças.” Até que engendrou um plano. “Arranjei um emprego numa pastelaria, a ganhar direitinho, com contrato, para arranjar dinheiro para sair de casa com os meus filhos, mas nunca o consegui, tinha de pagar as contas.”

Maria deixou de gostar dele? “Como é que hei de explicar. De início, esperava sempre que ele melhorasse. Ele pedia perdão e nós íamos perdoando, só que o gostar vai acabando e o meu gostar acabou. Fiz a primeira queixa à polícia, mas ele pediu perdão, implorou, acabei por a retirar. Na última vez que se queixou disse basta: “Chamei a polícia, pedi que me arranjassem um lugar para ficar com os meus filhos, levaram-me para a esquadra e a Cruz Vermelha arranjou-me um abrigo de urgência. Ele descobriu-me. Depois vim para aqui, agora quero é arranjar um emprego.”

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