Nuno Crato no Brasil

nuno-crato.JPGO Brasil vai-se tornando local de peregrinação de pedagogos, ideólogos e cientistas da educação portugueses, pelo menos a avaliar pela frequência com que a imprensa brasileira noticia a sua presença e os vai entrevistando. Agora foi a vez de Nuno Crato, que explicou, à Folha de S. Paulo, algumas das suas ideias anti-eduquesas e contrárias ao que insiste em chamar a “pedagogia romântica”. Claro que, da forma como as enuncia, até têm algum sentido lógico. O problema, deste lado do Atlântico, é que tivemos oportunidade de as ver em acção, e os resultados estiveram longe de ser brilhantes.

A verdadeira pedagogia moderna, baseada nas ciências cognitivas do século 21, mostra que não basta saber ler. Os jovens devem ter fluência na leitura e nas operações matemáticas. Isso lhes permite depois libertar a mente para atividades de ordem cognitiva superior. Se o jovem estiver a soletrar enquanto lê, terá dificuldade de entender o conteúdo do texto.

A psicopedagogia do século 21 descobriu que há um conjunto de automatismos que ajuda a compreensão. A ideia é que as tarefas cognitivas de ordem superior – reflexão, crítica, criatividade – são baseadas em processos da ordem inferior. E o grande erro da pedagogia romântica é pensar que se pode chegar aos processos cognitivos superiores esquecendo-se dos inferiores.

Nuno Crato contesta o que considera mitos da educação, como o de que os alunos só devem aprender o que gostam, porque antes de conhecerem alguma coisa sobre determinado assunto não poderão saber se gostam ou não. Afirma que a avaliação não traumatiza, antes pelo contrário, é um incentivo necessário à aprendizagem. E que memorizar ajuda a desenvolver o cérebro e fornece uma base cognitiva para aprendizagens de nível superior. É difícil discordar.

Crato não acha que a exigência prejudique os pobres, mostrando-se defensor de uma escola pública exigente, pois ela é a única oportunidade dos mais pobres poderem obter o conhecimento e as capacidades de que precisam para melhorar a sua vida. Ao contrário dos ricos, que podem frequentar escolas privadas ou ter explicadores para compensar as falhas do ensino público. Isto também é evidente. Mas o problema não está nos pobres que são bons alunos nem nos ricos que usam o seu dinheiro para compensar a falta de esforço ou de inteligência: está nos alunos que não conseguem corresponder nem encontrar sentido nesse ensino exigente e que Crato, enquanto ministro, se limitou a remeter para esse refugo educativo a que chamou ensino vocacional.

Em relação ao ensino por projectos, o antigo ministro adverte que não deve ser usado de uma forma que desvalorize o conhecimento disciplinar. E dá um exemplo pertinente:

A história, por exemplo, tem uma ideia de continuidade que deve ser apresentada de maneira sistemática. Se o jovem faz uma vez um projeto sobre a Grécia Antiga, outro sobre os índios brasileiros, nunca terá um conhecimento conjunto da história. Projetos são auxiliares do ensino, não podem ser sobrevalorizados.

Olhando retrospectivamente para os quatro anos de Nuno Crato à frente da Educação portuguesa, e mesmo dando de barato a desculpa da crise e dos cortes orçamentais, a verdade é que pouco ou nada se viu, em termos de pensamento estratégico para a educação, que fosse para além da introdução de mais e mais exames.

O rigor e a exigência que se exigiam aos professores e às escolas não foram aplicados aos serviços do ministério, nem à própria equipa governativa. Ainda não nos esquecemos, julgo eu, das trapalhadas dos concursos e das colocações, das turmas de 30 alunos, dos cortes nos apoios educativos e na educação especial, do favorecimento de lobbies. Nem do ensino vocacional criado à pressa e para onde eram enviados todos os jovens a partir dos 13 anos que se mostrassem incapazes de cumprir os critérios de exigência impostos pelo ministério.

Entre os excessos do ensino formatado dos exames e das metas defendido por Nuno Crato e do lirismo folclórico do “aprender a brincar” e das auto-aprendizagens que nos garantem ser, à mistura com o uso desregrado dos gadgets tecnológicos, a nova modernidade educativa, penso que haverá algures um meio termo, construído com experiência, sensatez e boa pedagogia: será esse o rumo certo da escola do século XXI.

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One thought on “Nuno Crato no Brasil

  1. (Antes do meu comentário gostaria apenas de referir que como estudante a terminar a licenciatura em Psicologia e indo seguir a área de Psicologia da Educação, considero este blogue extremamente interessante e informativo, que apesar de ter acabado de descobrir irei de certeza ser um leitor constante)

    A conceção de Nuno Crato de criticar a ideia de que, “alunos só devem aprender o que gostam”, parece-me tender para o princípio de a escola ser um lugar maioritariamente para instruir e a felicidade dos alunos deve estar em segundo plano.

    Sempre me fez confusão que se separe o conceito de felicidade do de formação. Principalmente pois existem inúmeros estudos científicos fáceis de aceder que comprovam que a motivação instríseca é essencial na aprendizagem. Até os conteúdos considerados mais cansativos poderão ser expostos de uma forma mais interativa que acede exatamente a este tipo de motivação.

    Até de um ponto de vista neurológico a felicidade dos alunos numa certa atividade, leva a uma maior receção de dopamina que aumenta a retenção na memória de Longo Prazo. Para todos os efeitos ao ensinar uma determinada matéria a motivação intrínseca dos alunos deve ser assegurada e passa por criar um ambiente que permita a felicidade dos alunos na aprendizagem.

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