Não é a escola que cria emprego, é a economia!

ensino vocacionalRetomo a entrevista a Licínio Lima já ontem citada, agora numa passagem referente ao ensino profissional e vocacional.

Tem existido algum consenso entre os decisores políticos e na própria opinião pública acerca da necessidade de investir mais em cursos secundários de carácter eminentemente prático, focados não no saber académico que desmotiva muitos alunos e gera insucesso e abandono, mas na aprendizagem de actividades e profissões que correspondam aos interesses e necessidades dos alunos e que promovam a sua empregabilidade.

Organizações internacionais como a OCDE, o FMI ou o Banco Mundial têm promovido esta orientação dos sistemas educativos em direcção aos conhecimentos e competências que interessam, prioritariamente, ao mundo empresarial. Em Portugal, o subsistema do ensino profissional é maioritariamente financiado, a fundo perdido, pela União Europeia. No tempo de Nuno Crato chegou-se a alargar o conceito de ensino profissionalizante, através dos cursos vocacionais entretanto extintos, ao 2º e ao 3º ciclo.

Mas se o ensino profissional é necessário, desde logo para diversificar a oferta ao nível do ensino secundário, e porque é também a via mais apropriada para o prosseguimento de estudos de alunos com o perfil adequado, é igualmente verdade que há apreciável dose de cinismo e hipocrisia na forma como se promove esta espécie de via rápida para o mercado de trabalho. Na linha do que já por aqui tinha sido referido, Licínio Lima explica, com toda a clareza, por que nem tudo são rosas no ensino profissional:

A ideia é de que cada vez mais é importante desenvolver competências e codificações técnicas para a empregabilidade, a competitividade econômica, o aumento da produtividade do trabalho, e que isso deve ser feito cada vez mais cedo e deve ser feito como oferta educativa para alunos que não teriam uma vocação tão científica ou humanística para prosseguir nas vias clássicas que dão acesso ao Ensino Superior, etc.

Pois bem, o que os estudos sociológicos demonstram, há mais de 50 anos, é que, de uma maneira ou de outra, estas vias tendem a ser socialmente discriminatórias. Se nós analisarmos as estatísticas, a maior parte dos alunos que entra cedo no ensino profissional ou vocacional é oriunda de certas famílias, de certos estratos sociais, culturais e econômicos.

Nós, na Europa, propomos como um teste simples a pergunta: ‘Quem conhece melhor a cultura escolar e as escolas?’ E a resposta invariavelmente é os professores. E a segunda pergunta é: ‘Quantos professores têm seus filhos na educação profissional e vocacional?’ A percentagem é muito baixa em geral, pelo menos na Europa, não sei quais são os dados no Brasil. O que significa que os professores e educadores não querem para seus filhos e filhas uma educação profissional, embora deva dizer que a educação profissional tem lugar no projeto de escola pública, o que ela não deve, do nosso ponto de vista, é ser segmentada.

Há uma educação geral para quem persegue os estudos e entra na universidade e há uma formação profissional para os outros, que é basicamente discriminatória, são duas paralelas que nunca se encontram e em alguns casos é muito subordinada à economia e às empresas. O exemplo da Alemanha é um caso concreto. A formação vocacional na Alemanha é fortemente financiada pelas empresas, porque ela produz os perfis profissionais para o mercado de trabalho. Desse ponto de vista, ela tem uma alta empregabilidade.

Em Portugal, a formação profissional, por exemplo, não tem uma alta empregabilidade. Não é a educação e a formação profissional que criam emprego, esta é uma ilusão. Quem cria emprego é a economia, não é a escola. Portanto, o problema que se coloca aqui é: ‘É possível pensar uma formação técnico profissional separada da educação geral?’ O ideal de uma educação, em toda sua latitude e longitude, seria a integração de componentes de formação cultural, humanística, científica, técnica, que pensasse também no trabalho, mas que não fosse fragmentada.

E, tendo que fragmentar de acordo com o projeto político, que o faça o mais tarde possível, porque é inconcebível que em idades muito elementares, básicas, nós tenhamos já fileiras de alunos orientados para esta lógica. No fundo, hoje a segmentação da formação profissional pretende priorizar a formação para o trabalho.

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