Revolução, a uma hora destas?

arminda-silva.jpgA professora Arminda Silva já está aposentada, mas continua a interessar-se pelos rumos da educação portuguesa face os desafios do presente e do futuro que aí vem. E defende, numa carta aberta publicada na Visão, uma ideia radical: ou a Escola faz uma revolução, ou morre.

Claro que ninguém quer que a escola morra ou que se transforme num espaço virtual e sem identidade, pelo que a revolução surge, aos olhos desta professora, como inevitável. A nova escola deverá assentar num novo “paradigma”, que Arminda Silva concretiza em sete pontos essenciais que irei expor e, tentando não me alongar muito, comentar:

1. A escola não é um lugar para ensinar, mas um lugar para aprender.

A velha dicotomia entre ensino, centrado no professor, e aprendizagem que se centra no aluno: nada disto é novidade e parece-me até,  para usar uma expressão da autora, algo démodé. Acho mais sedutor pensar que o trabalho do professor e o do aluno se complementam: há conhecimentos que só se adquirem e consolidam devidamente com o trabalho activo do aluno, orientado pelo professor, assim como noutras situações uma explicação clara e adequada ao nível etário dos alunos é a forma mais prática e eficaz de perceber um determinado assunto e passar à frente.

Depois, a aposta passa pela aprendizagem lúdica e sem esforço: na escola do futuro “o aluno aprende a ler sozinho, com um método-jogo de autoaprendizagem da leitura, com o qual atinge uma velocidade de leitura praticamente normal (nunca vai soletrar) contribuindo para o aumento da autoestima, porque é entusiasmante e para um relacionamento harmonioso entre todos os alunos, porque eles precisam uns dos outros para jogar. Na Matemática a manipulação do método Cuisenaire [jogo versátil e divertido] leva o aluno, sem esforço, desde as simples contagens às quatro operações básicas até à noção de potência e raiz quadrada; pode ainda ser utilizado para outros conceitos.

Os seres humanos têm um gosto e uma vontade inatos de aprender, e nesse sentido a aprendizagem pode ser fonte de satisfação e prazer. Mas parece-me fácil demais que as coisas funcionem assim, e suspeito que a maioria dos professores do 1º ciclo terá ainda maiores dúvidas a esse respeito.

2. A progressão escolar não deve fazer-se mais por transição de ano, nem basear-se só em testes de avaliação.

A transição de ano aqui inspira-se nos jogos, em que se passa à frente cada vez que se completa um nível. Os programas dividir-se-iam em módulos que os alunos iriam realizando sequencialmente, passando ao seguinte apenas quando dominassem bem o anterior.

Isto também não é novo; o ensino por módulos já existe há muitos anos, nomeadamente nos ensinos profissional e no recorrente. Mas compagina-se pouco com o resto da revolução educativa, pois quando quebramos as barreiras rígidas da aula tradicional a primeira coisa que percebemos é que no mundo real não existe esta compartimentação estanque, nem sequer entre as disciplinas, muito menos entre os conhecimentos supostamente sequenciais dentro de cada uma.

3. A escola precisa de ser um espaço aberto onde a informação e a comunicação circule, o saber não pode mais ficar trancado nas salas de aula.

“Núcleos” em vez de salas de aula, com materiais de consulta e manipulação, para que cada aluno investigue, leia ou experimente por si próprio à medida que circula entre diversos núcleos.

Interessante, desde que não se perca pelo caminho, entretido com o novo jogo instalado no telemóvel ou com a conversa que precisa de ser posta em dia nas redes sociais.

4. O ensino expositivo centrado no professor não tem mais cabimento; a indisciplina nas salas de aula há muito que o vem provando.

A conhecida tese do professor-facilitador e, também, avaliador. Embora se valorizem também a auto e a heteroavaliação, provavelmente com um peso maior do que têm na escola actual.

5. Os alunos não são armazéns para encher de conhecimentos.

Um lugar-comum que a professora logo de seguida contradiz quando afirma que “o aluno deve ser capaz no fim de cada módulo de saber utilizar e manipular o conhecimento adquirido em diferentes situações”. É que se o aluno precisa de usar o conhecimento então tem de o ter adquirido e, obviamente, “armazenado” para quando dele necessitar.

6. A Escola deve formar não para o saber fazer, mas para o saber pensar.

Eu diria que as ambos são necessários. É importante perceber o porquê das coisas, mas também há aquelas que é mais simples fazê-las, automaticamente, reservando o pensamento e a reflexão para o que é realmente importante nas nossas vidas.

7. Uma disciplina de Ética Prática deve fazer parte de todos conteúdos programáticos desde a infantil até ao fim da universidade.

O velho mal de todas as reformas educativas: acabam sempre a propor “uma nova disciplina”. A ética está, ou deveria estar, em tudo o que fazemos, pelo que faz todo o sentido que exista na escola, como sempre existiu, como uma componente do currículo a ser trabalhada por todos os professores e em todas as disciplinas.

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4 thoughts on “Revolução, a uma hora destas?

  1. Não sei bem o que se entende por “ética prática”, talvez por não ter lido a entrevista toda. Mea culpa.

    Eu acrescentaria o Empreendedorismo, só para arreliar 1 amigo que quando ouve este termo diz apetecer-lhe logo sacar de 1 pistola.

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    • Depreendo que será pôr os miúdos a reflectir e discutir a partir de situações do quotidiano que vivenciam. E uma disciplina só para isso.

      O empreendedorismo é curioso, porque o conceito continua a ser promovido oficialmente, mas no novo perfil do aluno está completamente omisso.

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  2. Já levo mais anos de ensino e eu, “cázinho”, ainda não vislumbro a reforma…

    O regurgitar do nauseante blá… blá… blá… do costume… que agrada sempre a alguns politraumatizados…

    A escola não é um lugar para ensinar… a escola não ensina a pensar… a indisciplina é culpa do ensino expositivo … a escola “ensina” a armazenar conhecimentos e não a mobilizá-los… Estará a falar de que escola?
    Isto é tudo tão velho… só lhe faltou falar da escola do séc.XXI para a achega final…

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