A escola do século XXI ataca de novo

escola-sec-xxi.JPGCriatividade, pensamento crítico, competências sociais são argumentos cada vez mais valiosos no mundo do trabalho. E, se assim é, que sentido faz as escolas continuarem a ensinar alunos como se fossem máquinas de armazenar e debitar conhecimentos?

Justifica-se continuar a pedir a crianças e adolescentes que fiquem sentados numa sala de aulas, de forma passiva, enquanto o professor os inunda com saber enciclopédico debitado e factos a que podem aceder rapidamente em qualquer site ou vídeo na internet? Justifica-se que os alunos não possam falar uns com os outros para debater matérias?

A extensa reportagem do Expresso procurou encontrar, nalgumas salas de aula de escolas portuguesas, uma antevisão do que será a escola do futuro.

Algumas ideias são relativamente consensuais: a tecnologia permite o acesso directo e imediato à informação, crianças e jovens habituados à interactividade e ao multimédia nos seus computadores e telemóveis mostram dificuldades em se concentrarem e motivarem perante uma aula tradicional, metodologias mais activas de aprendizagem são em geral mais aliciantes para os alunos e resultam em aprendizagens mais significativas.

Que resposta dão, a estes desafios, as escolas visitadas pelos jornalistas do Expresso? Em primeiro lugar, muita, e dispendiosa, tecnologia: iPads, quadros e mesas interactivos, smart TVs. Que só é acessível a colégios de elite ou a escolas públicas que concorrem a projectos públicos e privados e que recebem financiamentos generosos para adquirir estes equipamentos. E logo aqui tenho duas objecções: primeiro, não é viável equipar desta forma a generalidade das escolas, e segundo, tenho muitas dúvidas do alcance de qualquer reforma educativa quando ela se faz a reboque da promoção dos interesses das grandes multinacionais da informática.

E depois, há uma contradição que ressalta a quem ler atentamente a peça do Expresso: começa por se fazer uma caricatura da aula expositiva, dita do século XIX, em que o professor debita “saber enciclopédico”. Mas depois, nos exemplos que vão sendo dados da forma como os alunos pesquisam, analisam e constroem o seu próprio conhecimento, o que vemos são sobretudo coisas para decorar: a morfologia do ouvido ou os nomes de diversas espécies de dinossauros. E formas pobres e redutoras de avaliar resultados, como as perguntas directas de escolha múltipla à maneira dos concursos televisivos, em que ganha o mais rápido a assinalar a resposta certa.

Também se encontram ideias boas, como os trabalhos de pesquisa e de projecto de natureza interdisciplinar, a aprendizagem colaborativa, a apresentação à turma do trabalho produzido por cada grupo. Mas nada disto é verdadeiramente novo, e se não é mais praticado mais vezes é porque um conjunto de factores se tornam impeditivos: o número excessivo de alunos por turma e de turmas por professor, a falta de espaços e equipamentos adequados nas escolas, os programas extensos, as metas prescritivas e a pressão dos exames e dos resultados sobre o trabalho de alunos e professores.

Conviria, por isso, deixarmos de nos focar tanto na tecnologia enquanto magia educativa, pois tanto é possível ter uma aula dita tradicional em que todos os alunos intervêm e participam na construção do seu próprio saber, como usar os meios tecnológicos para mais facilmente formatar mentes e conhecimentos.

Pessoalmente, agradar-me-ia pensar numa escola do futuro mais em consonância com um outro modelo de sociedade, menos competitiva e mais solidária, mais focada no ser do que no ter, mais igualitária e menos injusta e discriminatória. Quando vejo colégios que têm todos os gadgets educativos e uma impecável cartilha de competências para o século XXI, mas que não foram capazes de fazer o mais óbvio, que era começar por tirar aquela gravatinha ridícula aos miúdos do 1º ciclo, tenho sérias dúvidas acerca do real alcance destas reformas.

gravatinhas.jpgEm boa verdade, para mentes continuam focadas no liberalismo e na ordem social do século XVIII, a escola do século XIX seria já um indiscutível progresso.

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3 thoughts on “A escola do século XXI ataca de novo

  1. Isto strikes again, mesmo.

    Gostei de ler.

    Só 2 notas:

    – Presume-se que os alunos sejam orientados pelos professores no acesso à informação posta à disposição pelas novas tecnologias, caso contrário o resultado pode ser decepcionante;

    – Na ênfase da escola do séc XXI e da tendência em torná-la em normativo, que é o que geralmente acontece, existe uma certa contradição com a ideia das inteligências múltiplas e das variadas formas de como os indivíduos aprendem.

    Por isso, nestas coisas, o melhor é o pessoal não stressar e, perdoem o populismo, “deixá-los poisar”.

    E já não sei o que dizer mais sobre este assunto, ou melhor, já não há paciência.

    A “novidade” não é novidade. E, como dizia o filósofo da antiguidade, não se pode banhar 2 vezes nas águas de um mesmo rio.

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  2. Só para acrescentar algo.

    Quando se fala na escola do séc XXI dá-se sempre atenção quase prioritária à sala de aula e às metodologias. No entanto, penso sinceramente que o problema mais importante a resolver é o própria organização da escola, por exemplo:

    – horários
    – tempos lectivos
    – regulamentos internos e outros docs da escola
    – períodos lectivos
    – ciclos escolares
    – burocracia redundante
    – avaliações interna e externa
    – não transformar professores em meros cumpridores de ordens internas e administrativas. Se a inovação e criatividade é o pretendido, então os professores devem ser os primeiros a usá-la e a saber usá-la.

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  3. A verdade é que ninguém quer gastar milhões a equipar as escolas com o material necessário para todos poderem fazer coisas destas. Faz-se assim, com uns equipamentos oferecidos em projectos devidamente controlados e delimitados.

    E a “autonomia” dos professores também só será concedida na medida estritamente necessária para que os projectos funcionem.

    E há outra coisa que a extensa reportagem não refere: quantas salas e que percentagem de turmas e alunos permitem usar efectivamente estas tecnologias e metodologias da “escola do séc. XXI”? Serei só eu a suspeitar que isto é apenas para algumas turmas de elite e professores escolhidos a dedo?

    Mas o que me tira do sério mesmo é o menino da gravatinha. Se é aquilo que esperam da sociedade do século XXI dêem-me de volta, depressa, a minha escolinha antiquada do século XX…

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