O esquema fraudulento das viagens de finalistas

dj.JPGO Público descreve as ligações perigosas entre as direcções das associações de estudantes, as empresas organizadoras de viagens de finalistas e mais alguns peões e protagonistas que circulam neste jogo viciado que envolve dinheiro, influência e poder.

Basicamente, é simples. Um grupo de jovens quer ser eleito para dirigir a associação de estudantes da sua escola secundária. Para isso precisa de organizar uma campanha eleitoral “à maneira”, com actividades apelativas e que suscitem o apoio e o voto dos colegas. Aqui entram as agências de viagens que acumularam experiência nesta área, fornecendo brindes, contratando artistas e dj’s, instalando aparelhagens de som e insufláveis no recinto escolar, sendo este apoio dado com uma contrapartida: se ganharem as eleições, hão-de contratar o patrocinador para organizar a viagem de finalistas.

Outras vezes as eleições “estão no papo” e os dirigentes estudantis não querem apoios para a campanha, mas sim viagens de borla para eles e para os amigos em proporção ao número de finalistas-pagantes que conseguirem angariar. E as agências incentivam este “empreendedorismo” oportunista em que, enquanto houver quem se sujeite a pagar preços inflacionados para não se sentir excluído, os ganhos estão garantidos. Para os mentores destes “dealers”, campeões da popularidade interesseira e manipuladora, tudo se resume a algo muito simples:  “Nós ajudamos os estudantes e eles ajudam-nos a nós”.

Há agências que nomeiam “RP” (relações públicas), ou dealers — estudantes que, de forma individual, conseguem clientes para as viagens e que, tal como as associações, ganham viagens grátis ou as trocam por dinheiro. Nuno Dias diz que o “primeiro contacto” para apresentar os programas de viagens é sempre feito com as associações de estudantes, embora também aceitem a colaboração dos chamados “RP”.

Na agência Megafinalista esta prática é fortemente incentivada. “We Want You” (“nós queremos-te”), lê-se no seu site. “Queres ser o próximo dealer da tua escola? Envia os teus dados.” Depois, vêm as explicações mais detalhadas: “Um dealer é aquele que vai convencer e influenciar os amigos e conhecidos a participar numa das viagens que está a organizar”, prossegue. “Imagina o que é ganhares viagens para ti, para os teus amigos… ou então podes trocar por €€€. Ganhas uma comissão por cada inscrição que fazes, portanto quantos mais inscreveres mais ganhas!”

A agência incentiva ainda os jovens a recrutar e a gerir “uma rede de dealers”. “Afinal não conheces só malta da tua Escola. Imagina o que é teres uma rede de amigos/conhecidos a vender as viagens e tu a ganhares por cada inscrição que eles conseguem! O Céu é o limite.”

Apercebi-me de que isto funcionava assim há uns cinco ou seis anos atrás, quando os meus filhos frequentavam o secundário. E espanto-me agora ao constatar, pela peça do Público, que nada de substancial mudou neste grosseiro esquema de corrupção que nunca deveria ser permitido nas escolas: é esta a aprendizagem da democracia que andamos a promover através das associações de estudantes e do vale-tudo nas respectivas campanhas? Porque nos escandalizamos então com a corrupção, o clientelismo e o tráfico de influências na vida política, se é desta forma que se iniciam, no associativismo juvenil, boa parte das carreiras políticas de sucesso?…

Já quase tudo foi dito nos últimos dias acerca das viagens de finalistas. Mas talvez se deva sublinhar o ensinamento mais importante a retirar dos incidentes, dos excessos e do lavar de roupa suja em que se tentou diluir as responsabilidades de demasiada gente: a necessidade de os pais destes jovens se envolverem activamente na organização, na supervisão e mesmo no acompanhamento deste tipo de actividades. Que deveriam incluir também, já que se invoca o estatuto do estudante finalista uma vertente cultural, a contrabalançar o lado recreativo e o desregramento que tende a predominar nestas experiências colectivas de jovens deixados por sua conta.

Fazer aquilo que muitos pais fazem, que é pagar os 500 e tal euros pedidos, para que os seus filhos não sejam deixados para trás – muitas vezes com enormes dificuldades, pois estamos a falar de um valor que representa a remuneração mensal de metade da população portuguesa que ainda consegue ter trabalho – e alhearem-se do que eles irão andar a fazer durante uma semana, fingindo confiar em organizações que há muito mostraram ser indignas de confiança, é de facto um péssimo serviço que prestam, já nem digo à sociedade, mas aos seus próprios descendentes.

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