Reforma digna para quem não teve infância

seniores.jpgMariana Mortágua coloca de uma forma justa a questão dos trabalhadores com longas carreiras contributivas: são pessoas que já trabalhavam quando entraram na adolescência, ganhando salários miseráveis em troca de longas e penosas jornadas de trabalho. A estas pessoas, que somam hoje mais de 40 anos de trabalho e de descontos, não se pode devolver a infância e juventude perdidas. Mas podemos, e devemos, permitir-lhes o merecido descanso depois do muito que trabalharam, concedendo-lhes a reforma por inteiro e sem penalizações.

Mais de metade das pessoas que hoje se reformam começaram a trabalhar antes dos 16 anos. Nada mau, para um país de alegados preguiçosos.

Dijsselbloem e Schäuble, o ministro das Finanças alemão que encontra satisfação em fazer de Portugal o bode expiatório dos males da Europa, não devem nada a esta geração de trabalhadores a não ser um pedido de desculpas pelo insulto à sua vida de trabalho. Mas nós, sociedade, devemos-lhes muito.

Temos a responsabilidade de conquistar o direito ao descanso e à reforma para todos os trabalhadores depois de 40 anos de contribuições. E dentro desta reivindicação há uma urgência, que deve ser resolvida já, enquanto é tempo.

Não podemos aceitar que se penalize quem, apesar de ter quarenta ou mais anos de descontos, ainda não atingiu a idade da reforma porque começou a trabalhar em criança. A infância não pode ser devolvida, mas a reforma sem penalizações é um direito que não pode ser adiado.

Vemos hoje uma sociedade que endeusa e mima a juventude, ao ponto de muitos acharem normais e saudáveis, como se viu por estes dias, as bebedeiras e o vandalismo das viagens de finalistas. Famílias que, havendo dinheiro para ócios e vícios, prolongam a adolescência dos seus rebentos até perto dos 30 anos, pouco ou nada lhes exigindo a não ser que se divirtam e que “sejam o que quiserem”.

Já a forma como se resiste a reparar uma injustiça tão evidente com os trabalhadores mais velhos revela um vergonhoso esquecimento e ingratidão por décadas de esforço e sacrifícios de gente cujo trabalho e privações construíram a frágil prosperidade em que quase chegámos a viver. E que, com políticas económicas desastrosas e um consumismo insano e sem sentido, temos nas últimas décadas tratado de desbaratar.

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6 thoughts on “Reforma digna para quem não teve infância

  1. Um dos melhores dos últimos escritos da mana Mortágua com alguma coisa na cabeça. Todo esse universo de trabalhadores raramente beneficia de projeção mediática e, por consequência, atenção da esquerda muito ocupada com os seus eleitores intelectuais.

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    • Mas é mesmo a estas realidades que a esquerda digna desse nome deve estar atenta e ser interventiva; caso contrário abre o caminho aos demagogos de direita que se vão especializando em explorar as injustiças e os ressentimentos que as forças políticas tradicionais não sabem ou não querem resolver.

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  2. ” caso contrário abre o caminho aos demagogos de direita que se vão especializando em explorar as injustiças e os ressentimentos que as forças políticas tradicionais não sabem ou não querem resolver.”

    Esta, eu não percebi. Se são de esquerda são interventivos, se são de direita são demagogos?

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  3. O Michael Moore também escreveu muito lúcidamente sobre estas “franjas”. Mas fica-se com a sensação de que no fundo ele lamenta que as franjas não se deixem ficar caladinhas, e se sacrifiquem, se não em nome da globalização, pelo menos até à candidata ungida ser eleita.

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  4. Considero demagógica a direita populista porque não vejo, nas suas políticas concretas, respostas para os problemas dos mais desfavorecidos.
    Mas agora que temos Trump no poder nos EUA, e daqui por quatro anos poderemos avaliar o estado do país e do mundo e se os deserdados da globalização ganharam alguma coisa além do consolo com as tiradas demagógicas.

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