A viagem de finalistas

camino-real.JPGA viagem de finalistas a Torremolinos que teve final antecipado para cerca de mil jovens portugueses, acusados de desacatos e vandalismo no hotel onde estavam alojados, segue um padrão que, infelizmente, se tem vindo a tornar habitual: hordas de jovens irresponsáveis e imaturos, álcool e drogas a potenciar uma dinâmica de grupo caótica e destruidora, famílias para as quais é mais fácil gastar mais de 500 euros nestes lamentáveis programas de festas do que cumprir a função primordial de educar os filhos.

Independentemente das razões que os finalistas possam ter em relação ao mau serviço do hotel, parece-me que há algo de profundamente errado quando jovens de 17 anos que ainda pouco sabem da vida, sobretudo no capítulo do trabalho, dos deveres e obrigações, já se acham no direito de partir, sujar, estragar e incomodar porque, dizem, isso é “normal” nas viagens de finalistas. Ora esta “normalidade” faz parte das coisas com que nunca nos deveremos conformar:

“Este tipo de comportamento é inadmissível”, diz ao PÚBLICO a psicóloga educacional Sónia Seixas. “Há uma coisa que temos de esclarecer: aquilo que é normal e aquilo que é frequente. Que eles considerem que é frequente, é verdade. Mas não pode ser considerado normal”, adianta.

Também a CONFAP não poderia deixar de intervir na polémica, perante um comportamento colectivo de jovens portugueses que põe em causa, de forma bastante óbvia, a educação que recebem das suas famílias. Ainda para mais quando o filho da sua vice-presidente também fez parte do grupo de desordeiros. E o que diz a confederação dos pais, para além de recomendar uma leitura mais atenta das letras pequeninas dos contratos? Ninguém consegue adivinhar onde está, como de costume para esta organização, o verdadeiro culpado de tudo o que de mal acontece às pobres criancinhas?

“Tanto quanto sabemos, terá sido uma dezena de jovens a ter comportamentos reprováveis”, afirmou Jorge Ascensão, convidando toda a sociedade a refletir sobre o modelo educativo em que assenta hoje a escola.

Na sua opinião, o modelo de educação está demasiado centrado “nas classificações e no acesso ao ensino superior”, pelo que se impõe uma discussão sobre valores e limites que os alunos devem ter quando não estão nas aulas.

Para Jorge Ascensão, os problemas noticiados quase todos os anos com viagens de finalistas são “sinais de alerta” que devem levar a uma reflexão, nomeadamente se faz sentido este tipo de organização no ensino secundário.

Claro que estes passeios não fazem qualquer sentido em termos educativos, nem as escolas têm alguma coisa a ver com a sua organização. E “quando não estão nas aulas” os jovens têm pais e mães que os deveriam educar nos tais “valores e limites” que devem ter na relação com os outros e no usufruto de tudo aquilo que a família, a escola e a sociedade colocam à sua disposição, e que é muito mais do que tiveram as gerações anteriores.

De resto, ao longo da sua escolaridade cada aluno participará nalgumas dezenas de visitas de estudo, onde a dedicação, o esforço e o profissionalismo dos seus professores permitem que, não só aprenda alguma coisa, como não tenham de se lamentar finais tristes como os das viagens de finalistas.

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