Professores exaustos, frustrados e mal pagos

burocracia[1]Especialmente inspirado e certeiro nas críticas está Santana Castilho, que na sua coluna semanal do Público sublinha as incoerências de uma reforma que quer redefinir as aprendizagens essenciais sem mexer nos programas e nos currículos e motivar os professores para o trabalho colaborativo ao mesmo tempo que os afoga em estúpida burocracia.

Com o contentamento irresponsável de quem não conhece a realidade, o ministro da Educação puxou pela cabeça e descobriu que a distância entre os nossos jovens e o iluminismo das metas para o século XXI se deve à inadequação da formação de 35 mil professores, que quaisquer 18 milhões de euros resolverão. À burocracia sem sentido que já existia somou a burocracia de um plano de combate ao insucesso, assente na formação do “Professor Novo” e no controlo de régulos sobre escravos. Os arautos da flexibilização a qualquer título para os alunos são os mesmos que ajoujam os docentes sob a rigidez estúpida de relatórios inúteis e torrentes de formação bafienta, que passa ao lado da causa das coisas mas, subliminarmente, inculca na classe um dissimulado complexo de culpa e muita frustração. Como gostaria de ver todo este folclore lançado à sarjeta, pela reclamação vigorosa, por parte da classe, do respeito que merece e do pagamento que lhe é devido, depois de uma década de progressão na carreira suspensa e salários congelados.

A verdade é que há mesmo mudanças necessárias a fazer nas escolas portuguesas, mas lamentavelmente, a teimosia do ministério está a comprometê-las, ao insistir em receitas falhadas – o controle burocrático sobre a docência, a formação requentada e “bafienta” que desinteressa à maioria dos professores e que terá escassa ou nula relevância para o trabalho quotidiano nas escolas e, talvez o mais grave de tudo, a subalternização dos professores, desprezando a sua experiência e a sua capacidade para reflectir criticamente sobre a profissão. Para serem parceiros e agentes activos e empenhados na construção de uma nova escola em que eles próprios participam, e não os “escravos” de régulos iluminados de que nos fala o articulista.

Os professores portugueses estão exaustos, frustrados e mal pagos, como acertadamente refere Santana Castilho, e enquanto o governo nada fizer para que deixe de ser esse o sentimento dominante na classe – enquanto não conseguir ganhar, com acções e medidas concretas, a confiança dos professores – creio nada de significativo irá mudar nas escolas portuguesas.

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2 thoughts on “Professores exaustos, frustrados e mal pagos

  1. Caro, António Duarte.
    Parabéns pelo blogue. Parabéns por pensar e por ajudar a pensar.

    Venho ler o que escreve semanalmente. Não falho. Discordo muitas vezes do que leio. Quando os textos vão mais para a política, vejo a realidade quase sempre ao contrário. Quando são mais técnicos sobre temas de educação, concordo sempre.

    Os últimos textos que tem escrito são críticos para as recentes medidas em matéria de educação. Eu já lá tinha chegado. Pergunto: o que ficará de estrutural, para melhor, da passagem deste elenco de governantes na educação?

    Quando a poeira assentar e olharmos criticamente para o que está a ser feito, que opinião teremos?
    Só consigo ver mãos cheias de nada.

    Força. Não se canse. De novo, parabéns.

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    • Obrigado pelas palavras de incentivo.

      Tento não ver as coisas a preto e branco, e se no plano dos princípios não é difícil estar de acordo com a maior parte do que este governo tem defendido, na concretização estamos a ver demasiadas trapalhadas e contradições.

      Ao fim de pouco mais de um ano em funções, reconheço que este governo ainda pouco ou nada fez de estruturante para a educação portuguesa, mas também há que convir: têm estado sob pressão, primeiro por reverterem a política de Nuno Crato, depois por quererem fazer reformas e já ter havido demasiadas nos últimos anos.

      Neste momento já me parece que um governo que conseguisse pacificar o sector, ganhar a confiança dos professores – e confiar neles! – gerindo a educação com os professores e não contra eles, talvez estivesse a fazer a melhor das reformas de que precisamos.

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