Coerência ministerial, precisa-se

Ao longo dos últimos 25 anos tivemos vagas sucessivas de retórica e legislação anti-insucesso com as mais variadas legitimações: ou porque é pedagogicamente infrutífero reter os alunos, ou porque isso lhes abala a autoestima, ou porque é uma “chaga social” ou, de forma mais pragmática, porque “é caro”. Sejam coerentes de uma vez por todas e restrinjam a possibilidade de reter os alunos a casos ultraexcecionais de falta de assiduidade, assumindo que todos (ou quase) devem passar de forma independente do seu desempenho, recebendo no final do ensino básico um certificado com as suas classificações, sejam quais forem. Abandonem de vez a noção de “positiva” e “negativa”, até porque a escala de 1 a 5 é toda positiva do ponto de vista matemático. E assim deixaríamos de comentar a transição de alunos com seis ou oito “negativas”. O aluno passou de ano com média de 1,5 ou 3,7 ou 4,8. E acaba-se de vez com o insucesso. Isso sim, consideraria coerente e pouparia imenso em “formação” e conversa fiada por todo esse país, a massacrar pela enésima vez os professores, tentando fazê-los sentir-se “inflexíveis” e culpados pelos males alheios.

Subscrevo a proposta do Paulo Guinote.estatistica

Não me parece aceitável que governantes e comissários políticos do ME critiquem reiteradamente a existência de retenções, nas quais não encontram um único aspecto positivo, e não tomem depois a única medida que seria coerente com tantas certezas e tão fortes convicções: estender aos restantes anos não terminais de ciclo o regime de transição automática que já há muitos anos vigora na passagem do 1º para o 2º ano de escolaridade.

Aliás, a transição nos anos iniciais ou intermédios de ciclo já é praticada nalgumas escolas independentemente do número de “negativas”, sendo esta uma decisão pedagógica que há muito está confiada às escolas e agrupamentos. Tratar-se-ia apenas de generalizar uma “boa prática” que não tem merecido reparos de sucessivos governos e administrações educativas.

Claro que o facilitismo nas passagens de ano envolve o risco de os alunos chegarem ao final do ciclo com graves lacunas nos conhecimentos e competências adquiridos. Uma preocupação antiga dos professores, mas que segundo a boa ciência educativa do ministério não nos deve perturbar, pois sempre se arranjam “estudos”, com estatísticas e tudo, que demonstram que o aluno que passa de ano sem saber fica sempre a ganhar em relação a outro, igualmente ignorante, que foi “deixado para trás”.

Sendo a redução das retenções a valores residuais um amplo desígnio da Educação Nacional, que mobiliza sucessivos governos, reúne o pleno nas votações do Conselho Nacional de Educação, encontra apoios tanto nos estudos e nas teorias académicas das ESEs, do ISCTE e da OCDE, como nos meios mais liberais e/ou conservadores da Católica e das fundações merceeiras do regime, pergunta-se: o que os impede de imporem a sua vontade, como fazem em tantas outras decisões, aos “retrógrados” professores?

Porque insistem em alimentar a ficção dos “professores avessos à mudança”, quando a mudança que pretendem está ao alcance de um mero decreto governamental?

Duvidam assim tanto das certezas com que nos querem convencer, ou trata-se apenas de falta de coragem política em tomar uma decisão cuja responsabilidade lhes ficará para sempre associada?

Quão mais fácil é culpar os professores por condenarem os seus alunos ao insucesso…

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One thought on “Coerência ministerial, precisa-se

  1. “o que os impede de imporem a sua vontade, como fazem em tantas outras decisões, aos “retrógrados” professores?”o que os impede de imporem a sua vontade, como fazem em tantas outras decisões, aos “retrógrados” professores?

    Há reuniões “off” no início do ano avisando que não há retenção; há chamadas ao gabinete do/a director/a e há reuniões que são repetidas até terem o resultado pretendido.

    Entra-se pela porta dos fundos porque não há coragem.

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