Profissionais… da demagogia

vocation.gifNo Dia do Ensino Profissional, cuja existência desconhecia mas que hoje se assinala, foi reafirmado o objectivo político de ter 50% dos alunos do secundário no ensino profissional.

De acordo com as últimas estatísticas oficiais disponíveis, 43,44% dos alunos do ensino secundário frequentaram o ensino profissional em 2014/15, através de cursos profissionais propriamente ditos e de outras vias semelhantes, como os cursos tecnológicos. Ou seja: a meta do Governo, que vai ao encontro das médias de outros países europeus, está a cerca de 6.5 pontos percentuais de distância.

O “incremento progressivo da oferta” vai incidir no início destes ciclos de formação, com a ANQEP a estimar que, já em 2017/18, o 10.º ano de escolaridade possa “passar de um número de vagas para cerca de 42 mil alunos para um número de vagas que pode receber cerca de 52 mil no próximo ano”.

Além da concretização de um “objetivo político”, ter 50% dos alunos no profissional permitirá também, defende o presidente da ANQEP, acabar de vez com os estigmas que ainda possam existir em relação a esta alternativa às vertentes mais tradicionais: “No dia em que metade dos alunos frequentarem este caminho, passa a ser tão válido como o dos cursos científico-humanísticos”, vaticina.

Há demasiada demagogia para o meu gosto na promoção do ensino profissional, pelo que conviria, em vez das balelas do costume, assumir uma política de verdade que, a prazo, talvez isso dignificasse mais este subsistema de ensino e os alunos que o frequentam do que a banha da cobra que regularmente nos vão impingindo.

Para começar, aumentar o número de vagas nos cursos profissionais, quando se corta em quase tudo na educação, só faz sentido porque fica mais barato, ao Estado português, encaminhar os alunos para esta via de ensino altamente subsidiada com fundos europeus.

Se passados dez anos desde a introdução do actual modelo de ensino profissional, a percentagem de alunos que o frequentam estabilizou em torno de pouco mais de 40%, então talvez essa seja a tendência natural das coisas, de pouco servindo andar à procura de “estigmas” para justificar as opções, livres e ponderadas, dos alunos e das suas famílias.

Aumentar as vagas não é só por si uma medida eficaz pois, como o próprio presidente da ANQEP reconhece, isso não determina que os alunos se inscrevam – seria preciso fechar os correspondentes lugares nos cursos científico-humanísticos, ou seja, instituir uma política de numerus clausus no ensino secundário semelhante à que existe nas universidades. É o que vigora nalguns dos países onde o ensino profissional tem sido mais bem sucedido, mas duvido que, por cá, haja coragem política para chegar a tanto.

Finalmente, e para fazer algum sentido, a frase de Gonçalo Xufre, presidente da ANQEP, citado na notícia, teria de ser dita de outra forma: No dia em que metade dos filhos de políticos, gestores, empresários e banqueiros frequentarem os cursos profissionais, este caminho passa a ser tão válido como o dos cursos científico-humanísticos.

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