Aprendizagens essenciais

prof-e-alunos.gifEram demasiadas mudanças ao mesmo tempo na Educação, lançadas de forma apressada e atabalhoada, que não lograram convencer a maior parte dos professores e demais agentes educativos, nem a maioria das forças sociais e políticas: a promoção do sucesso educativo, que se fez passar com a mensagem subliminar de que “isto agora é para passar toda a gente” e que, ao contrário do que se pensa, ainda está longe de ser consensual, o perfil do aluno, documento vago e generalista que ressuscita o eduquês politicamente correcto de outros tempos, as aprendizagens essenciais, para cortar as “gorduras” curriculares e facilitar o cumprimento dos programas e, finalmente, a flexibilização pedagógica, destinada a promover o trabalho de projecto, a interdisciplinaridade e as competências de cidadania, reservando para o efeito até 25% do tempo curricular, a gerir por cada escola.

Perante as resistências ao avanço e, parece-me a mim, a própria incapacidade deste ministério em definir objectivos e estratégias claras para o cumprimento do seu programa de reformas, a ordem foi para recuar, remetendo para uma experiência-piloto as ideias mais polémicas que se pretendiam aplicar, já no próximo ano lectivo, de forma generalizada: as mexidas nos programas e a gestão flexível do currículo. Só que, com esta decisão, nasce um problema: a flexibilização curricular pode esperar mas, dizem-no muitos professores e respectivas associações, a revisão dos programas, não:

Lurdes Figueiral, da APM, diz ao DN que os programas de Matemática do ensino básico, em vigor desde 2014 e de Matemática A, aplicados desde 2015, têm em comum o facto de serem “demasiado extensos”, com a agravante, no caso dos primeiros, de serem “inadequados para a idade dos alunos”. E isto tem obrigado as escolas a fazerem uma “gestão” do que é de facto transmitido aos alunos.

A verdade é que no tempo de Nuno Crato se perdeu uma boa oportunidade de definir aprendizagens essenciais. As metas curriculares criadas durante o seu mandato deveriam ter servido para apontar o que é essencial em cada um dos programas e o que, sendo acessório, poderia ser mais ou menos aprofundado consoante as características dos alunos e das turmas, o tempo disponível e outros factores condicionantes das aprendizagens. Em vez disso, as metas curriculares acabaram, em muitos casos, por acrescentar novos conteúdos aos programas ou por aumentar a complexidade dos que já lá estavam.

Na prática, muitos programas são, hoje, completamente inexequíveis, e a única questão que se coloca é se vamos continuar a fingir que toda a gente os cumpre, mais as respectivas metas, ou se assumimos de uma vez por todas a necessidade de optar entre a corrida de velocidade para conseguir chegar ao fim da matéria antes de terminar o ano lectivo ou o reconhecimento de que “dar” o programa implica não apenas despejar conteúdos mas trabalhar sobre eles de forma a serem entendidos. Não basta ter ouvido falar nos assuntos, é fundamental que a partir deles se façam aprendizagens significativas, adquirindo competências e desenvolvendo capacidades.

A verdade é que programas mínimos, aprendizagens essenciais, ou o que lhes queiram chamar, já os temos entre nós há muito tempo, sempre que, por qualquer razão, se percebe a impossibilidade de leccionar tudo o que determinado programa contém e se cortam ou aligeiram algumas partes. E todos os professores, deixemo-nos de histórias, já o fizeram uma e outra vez. A questão é se deixamos isto ao critério de cada escola ou professor ou definimos, finalmente, um currículo nacional mínimo e obrigatório a que todos os alunos portugueses deverão ter acesso. E que será depois complementado pelos restantes conteúdos do programa, mais ou menos desenvolvidos consoante as opções tomadas em cada escola. Porque programa mínimo não é, nunca poderá ser, programa máximo.

Ao contrário da flexibilização, que pode e deve esperar por melhores dias, as aprendizagens essenciais, a meu ver, já eram para ontem.

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One thought on “Aprendizagens essenciais

  1. “Mas sabemos, por exemplo, que em relação ao programa de Matemática A, as escolas deram sempre tempo extra à Matemática, mas ficaram ainda assim capítulos inteiros nas escolas por dar, por exemplo a Estatística.”
    Talvez nem toda a gente saiba é que este “tempo extra” sai da componente não lectiva dos professores, não me parece justo nem aceitável…

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