Populismo ou caso de polícia?

Quando um país europeu se encontra a braços com uma epidemia de sarampo porque um partido político decidiu caçar votos propagando uma mentira e exortando os pais a não vacinarem os filhos, isto deve ser visto como parte legítima da luta política, como direito dos pais a decidirem, ainda que com base na ignorância e na mentira, o que é melhor para os filhos, ou antes como um sério atentado ao direito à vida e à saúde das crianças?

O director-geral de saúde preventiva do Ministério da Saúde italiano responsabiliza o Movimento 5 Estrelas pelo recente surto de sarampo no país. Dados dos primeiros meses deste ano mostram um crescimento de 230% no número de pessoas infectadas com a doença, sobretudo crianças. Nos últimos quatro anos, o número de bebés vacinados tem descido sucessivamente. Em 2015, o partido populista liderado por Beppe Grillo apresentou uma lei contra a vacinação, associando-a a doenças como a leucemia ou o autismo.

Em declarações ao jornal italiano L’Unitá, o responsável do Ministério da Saúde, Raniero Guerra, é claro: “Dizer que é normal este tipo de epidemia de sarampo em ciclos plurianuais é uma loucura”. O responsável defende ainda que a doença não devia manifestar-se desde que fossem cumpridos os critérios do plano nacional de vacinação, que tinham feito do sarampo uma doença virtualmente erradicada de Itália. “O que está a acontecer deve-se à redução” do número de pessoas vacinadas, afirma Guerra, associando o que está a acontecer com as posições do Movimento 5 Estrelas.

Quando mais de 95% da população de um país é vacinada contra uma doença, esta simplesmente desaparece. Casos isolados que possam ocorrer com pessoas não vacinadas vindas do exterior não originam epidemias porque as pessoas com quem contactam se encontram protegidas.

Cumprindo exemplarmente as recomendações da OMS e do seu próprio Plano Nacional de Vacinação, Portugal conseguiu nos últimos anos erradicar, não só o sarampo, mas também a rubéola, a poliomielite, a difteria, a malária e a raiva humana. Além da varíola, mundialmente extinta graças à vacinação.

sarampo.jpgO mesmo não podem dizer, como se vê no mapa, alguns países da Europa moralista, a braços com uma doença potencialmente fatal para as crianças e perfeitamente evitável com a vacinação universal.

A Itália, com 844 casos de sarampo em 2016, já vai com cerca de 700 só neste início de 2017, juntando-se assim à França, à Alemanha e aos EUA, países onde os movimentos anti-vacinação têm ganho terreno.

Voltando a Portugal, é caso para dizer, parafraseando o outro palerma, que além de apreciarmos a bebida e as mulheres, também gostamos dos nossos filhos o bastante para percebermos a importância de uma vacina.

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