Flexibilização pedagógica

É o novo nome do que até aqui tem sido designado por flexibilização curricular. De recuo em recuo, depois de o ME se ver forçado a admitir que nem os programas, nem as matrizes curriculares, nem os manuais escolares serão alterados e que as reformas anunciadas não passarão, para já, de uma experiência pedagógica, a nova designação parece mais apropriada ao que querem – ou ao que os deixam – fazer.

Finalmente, depois de meses de anúncios pontuais, o ME indicou o que entende por “flexibilização”. E o que propõe traduz-se numa mudança profunda do modo como é encarado o tempo de ensino. A tutela vai desafiar as escolas, por exemplo, a suspenderem em semanas alternadas o tempo normal de aulas, para se dedicarem em conjunto, e com base numa perspectiva transdisciplinar, ao estudo de um tema.

Isto, garante, sem mudar as cargas lectivas totais inscritas nas matrizes curriculares e aproveitando a possibilidade que será dada aos estabelecimentos de ensino “de gerir até 25% da carga horária semanal” que está definida para cada ano de escolaridade. No 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, com uma carga média de 1400 minutos de aulas por semana, isso representa cerca de 350 minutos semanais para gerir.

A mesma abordagem por temas poderá ser experimentada de outra forma: as escolas podem optar por dedicar apenas uma parte da carga semanal lectiva de duas ou três disciplinas a um tema, trabalhando os professores dessas disciplinas em conjunto, segundo indicou o ME.

Eu não sou por natureza avesso à mudança, embora também não goste de mudar só por mudar, sem um mínimo de garantias de que pelo menos uma parte do que muda será para melhor. E aflige-me não conseguir deixar de ver, nas diferentes sugestões e cenários que vão saindo cá para fora, uma grande inconsistência e um enorme desconhecimento da realidade.

É que nas sebentas das ciências da educação é fácil desenvolver teorias. Basta um razoável encadeamento lógico das ideias e alguma imaginação para ver tudo aquilo a funcionar. O problema é quando descemos à realidade concreta e vemos como a bota não joga com a perdigota.

Por exemplo, ontem a comunicação social dava como exemplo de flexibilidade pedagógica o tratamento interdisciplinar do tema dos Descobrimentos pelas disciplinas de Português e História. Poderia ser interessante, não se desse o caso de os Descobrimentos serem estudados em História no início do 8º ano. E o contexto em que são abordados, nas aulas de Português, é o estudo d’Os Lusíadas, no 9º ano de escolaridade. Ora como a “flexibilidade” não se estende aos programas nem aos manuais, fica sempre a dúvida desagradável: quem diz estas coisas em público fá-lo por não se dar ao trabalho de confirmar se as propostas são exequíveis, ou sabe-o bem e está conscientemente a armadilhar o terreno a quem vier a tentar pôr de pé esta reforma educativa encapotada?

E depois constroem-se cenários, para mostrar que está tudo previsto, estudado, controlado. Cinco cenários à escolha, para que cada escola flexibilize à sua maneira. O problema é que todos partem de uma realidade inexistente, disciplinas com 200 minutos semanais:

cenarios.JPG

Ora a realidade que qualquer professor do 2º ou 3º CEB conhece é que, salvo o Português e a Matemática, onde até há mais tempo semanal, as restantes disciplinas têm carga horária muito mais reduzida: em regra, entre 90 e 150 minutos semanais. E se num  contexto de “fartura” seria fácil distribuir horas e minutos por projectos e interdisciplinaridades, na escassez de uma ou duas aulas semanais que já não são suficientes para cumprir cabalmente os extensos programas em vigor, a flexibilização irá criar mais problemas do que aqueles que poderia supostamente resolver.

Desejo boa sorte às escolas que se voluntariarem para experimentar as ideias do secretário de Estado da Educação, e espero que contem, da parte da tutela, com todo o merecido apoio. Mas por mais que me esforce não consigo encontrar nesta reforma dita pedagógica a necessária ponderação, equilíbrio e consistência que crie um mínimo de condições para que possa dar certo.

Já se deveria ter aprendido alguma coisa com anteriores experiências, como a Área-Escola ou a Área de Projecto, percebendo que, se por um lado podem criar contextos favoráveis à inovação pedagógica, a sua generalização apressada, a gestão economicista e a falta de condições, meios e motivação para a sua implementação acabam, num par de anos, e passado o efeito da novidade, com todas as potencialidades que essas iniciativas poderiam trazer.

Quando a Área-Escola e a Área de Projecto morreram, lembro-me bem, ninguém lhes rezou pela alma. As novas flexibilidades do século XXI ainda não viram a luz do dia, mas temo que venham a ter o mesmo destino.

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3 thoughts on “Flexibilização pedagógica

  1. Já não sei o que pense, sinceramente.

    Que confusão!

    Então isto é assim?:

    1- Começa-se com as 10 competências a serem adquiridas pelos alunos até ao 12º ano, ignorando-se que essas competências já estão em todos os programas das várias áreas disciplinares,

    2- Mete-se no meio um “novo” conceito, o da flexibilização curricular, potenciadora de um trabalho de projecto interdisciplinar, ignorando-se que isto já se faz,

    3- Entretanto, passa-se para o conceito de flexibilização pedagógica, potenciadora de boas e interactivas práticas e metodologias pedagógicas, ignorando-se que isso já se faz (ao contrário , isso sim, do que se fazia nos liceus),

    4- Finalmente, falta a coragem de se acabarem as retenções, ignorando-se que, em muitos lados, isso já se faz de modo informal e não normativo.

    Agora, aparecem-me estas 4 hipóteses mirabolantes…….

    O pragmático de outros países/escolas:

    – Na Alemanha, por exemplo, havia, há uns tempos, a chamada Semana de Projecto onde os alunos trabalhavam e apresentavam os seus trabalhos interdisciplinares. Bem definida num espaço de tempo, sem grandes confusões.

    – Em escolas/colégios estrangeiros, os alunos têm de cumprir um determinado período de tempo fazendo e promovendo um trabalho de voluntariado obrigatório. É o que se passa, por exemplo no colégio St. Julian´s, para os lados de Carcavelos. Tudo bem definido e organizado num determinado espaço de tempo. Sem confusões.

    E agora vou desligar-me disto porque , confesso, estou mesmo baralhada e já começo a não saber o que hei-de pensar nem o que escrevo…….

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  2. Não colocou um “não” a mais nesta frase:
    “E aflige-me não conseguir ver, nas diferentes sugestões e cenários que vão saindo cá para fora, uma grande inconsistência e um enorme desconhecimento da realidade.”

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