Flexibilização curricular só para quem quiser

flexibilidade.gifA anunciada flexibilização curricular avançará mesmo no próximo ano letivo em escolas que se voluntariem para começar a aplicar as mudanças. Quer isto dizer que a partir de setembro as escolas selecionadas terão liberdade para gerir até 25% do currículo. E o que é que isto significa? Que a partir dos tempos fixados pelo Ministério para cada disciplina – e que mantêm no essencial as alterações introduzidas por anterior ministro Nuno Crato – um quarto do total dessas horas (cerca de 390 minutos por semana no caso do 2.º e 3.º ciclos do básico) pode será trabalhado pelas escolas de diferentes formas que não a aula tradicional dada por um professor.

O novo modelo de organização curricular aplicar-se-á apenas nos anos iniciais de ciclo e não implicará alterações substanciais nas cargas horárias das disciplinas, nem novos programas ou manuais. Permitirá, isso sim, que se juntem horas de diversas disciplinas, por exemplo, numa manhã ou tarde, ou mesmo uma semana inteira, em que se trabalha num projecto que contempla, não só os conteúdos disciplinares, mas também o desenvolvimento de competências transversais, nomeadamente as que são referidas no novo perfil do aluno.

É neste contexto que se continua a sugerir que disciplinas como a História e a Geografia passem a semestrais, de forma a duplicarem a sua carga horária e cada professor reduzir para metade o número de turmas e alunos que tem a seu cargo. O que não é dito é que neste caso a matéria do ano todo teria de ser condensada num semestre e repetida, à outra metade dos alunos, no semestre seguinte.

Ainda assim, a maior perplexidade continua a residir na distribuição das cargas horárias. Segundo a peça do Expresso, o ME promete um reforço nas ciências humanas e sociais e o alargamento das TIC a todos os anos do 2º e 3º ciclos. Mantendo-se intocados o Português e a Matemática, e sabendo-se que há outras áreas curriculares que também estão carenciadas de tempo, continua sem se perceber que voltas dará o ministério para conseguir ajustar a matriz curricular de forma a cumprir as promessas e expectativas que tem criado.

Quanto ao modelo em si, a chamada flexibilização curricular evoca algumas experiências em curso noutros sistemas educativos, por exemplo, na Finlândia ou, mais perto de nós, nos colégios jesuítas da Catalunha. No entanto, todos esses projectos inspiradores têm em comum o terem sido longamente planeados, introduzidos e testados gradualmente e acompanhados de mudanças na formação, na cultura e na organização escolar. Nada que se pareça com a desmotivação e a descrença que predomina entre os professores portugueses ou se compadeça com a pressa em lançar uma reforma da qual, a menos de meio ano do início do novo ano lectivo, ainda não se conhecem sequer os contornos precisos.

 

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2 thoughts on “Flexibilização curricular só para quem quiser

  1. Começou-se mal com tanta entropia e contra informação.

    Agora, joga-se para as escolas a FLEXIBILIZAÇÃO curricular e/ou pedagógica, como afirmam consoante o dia.

    Entre o normativo/prescritivo inicial e o agora- flexibilizem- lá- o -que- quiserem -e -como- quiserem, a gente desconfia.

    “estais lixados!” , li aqui há uns dias.

    Pois estamos.

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  2. Seria pedir muito se todos os envolvidos se pusessem de acordo quanto à definição concreta de certa terminologia?

    Começaríamos pelo conceitos:

    Flexibilidades, Flexibilização curricular e Flexibilização pedagógica.

    Nada como clarificar conceitos em vez de os citar de outras realidades e estudos.

    Nota: Lembram-se da flexi-segurança laboral? Noutros países, o termo era abrangente; os patrões portugueses gostavam mais da flexi. A segurança já era mais complicada de implementar.

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