As trapalhadas do CNE

Deve ter sido animada a reunião de ontem do Conselho Nacional de Educação. Na agenda havia dois pareceres para aprovar, um sobre o Perfil do Aluno e outro sobre o acesso ao ensino superior.

Apenas este último foi aprovado, embora o primeiro tivesse sido antecipadamente distribuído à comunicação social, sob embargo, para que os jornalistas preparassem as suas peças, a publicar ao final da tarde.

Como o documento não foi aprovado, o “parecer” passou a “projecto de parecer” e o CNE de David Justino, deselegantemente, tirou o tapete aos jornalistas que tinha encorajado a escrever sobre o assunto:

comunicado1.png

Passemos então à frente o parecer que ainda não passou de projecto e vejamos o que foi aprovado, sobre a revisão das condições de acesso ao ensino superior:

O Conselho Nacional de Educação (CNE) tem reservas sobre várias das alterações às regras de acesso ao ensino superior que são propostas por uma comissão nomeada pelo Governo. A principal mudança prevê uma correcção das médias dos alunos que estudam em escolas que atribuem notas desalinhadas face aos resultados que estes depois conseguem ter nos exames nacionais. Essa medida necessita de “reflexão acrescida”, defendem os conselheiros num parecer que foi apresentado esta segunda-feira, após o plenário daquele órgão.

A correcção, com base nos desvios estatísticos, das notas dos alunos que frequentam escolas onde as notas do secundário são sistematicamente inflacionadas, não sendo a solução perfeita, tem sido apontada como forma de resolver uma injustiça ainda maior: a que é criada a quem não tem frequenta um dos colégios que se especializaram na prática de inflacionar classificações para colocar os seus alunos nos cursos superiores mais pretendidos.

E é preciso que se diga que o CNE, ao recomendar mais “reflexão”, está apenas a fugir a um problema complicado, que ainda se agravará mais se o governo der guarida a uma outra sugestão do Conselho:

Os exames nacionais do 12º ano devem ter menos peso face à média das notas atribuídas pelos professores, na candidatura dos alunos a uma universidade ou politécnico. E cada instituição de ensino superior deve ter liberdade para definir o peso dos exames para a nota de candidatura dos alunos.

Como é óbvio, aumentar o peso das classificações internas na nota de candidatura ao ensino superior irá favorecer ainda mais aqueles que já têm notas de frequência sobrevalorizadas.

E o CNE cai em completa contradição quando, por um lado diz querer confiar mais no trabalho das escolas e por outro recomenda o reforço das inspecções às escolas que dão melhores notas. Como se fosse possível, ao fim de tantos anos a promover “sucesso”, enviar agora inspectores às escolas para obrigar a baixar as notas aos alunos. E nem vale a pena perguntar com que base legal o poderiam fazer.

Claro que a solução teria que ser outra, e mais radical: deixar de considerar as notas do secundário para o acesso ao ensino superior, responsabilizar as universidades pelo processo de selecção dos seus alunos e simplificar a candidatura e o acesso aos cursos politécnicos.

Como é evidente isto criaria uma pequena revolução no remanso da Universidade, zona de conforto de muitos doutos conselheiros da Educação. Ao contrário do mundo dos zecos, a virar de pernas para o ar sempre que for preciso, ali quanto menos se mexer melhor, e a fazê-lo que seja com todas as cautelas. Talvez por isso o texto do parecer aprovado não tenha sido logo divulgado, estando ainda a receber os retoques finais…

Anúncios

3 thoughts on “As trapalhadas do CNE

  1. Surreal esse parecer. Era interessante saber qual foi a posição dos representantes do ensino público. Não me admira que tenham alinhado na alucinação dos restantes conselheiros.

    Gostar

  2. “Claro que a solução teria que ser outra, e mais radical: deixar de considerar as notas do secundário para o acesso ao ensino superior, responsabilizar as universidades pelo processo de selecção dos seus alunos e simplificar a candidatura e o acesso aos cursos politécnicos.”

    Ora bem, uma boa proposta……

    Quanto à CNE, acabe-se com isto. Que grandes bacocos, ai Jesus!!!!!

    Gostar

  3. O CNE foi criado precisamente para isto: enquanto por lá se discute com todo o bicho-careta os problemas da educação, arredam-se da discussão os professores.

    Acusam-se recorrentemente os professores de corporativismo, mas temos na Educação uma verdadeira câmara corporativa, a qual nem o próprio Salazar, estou certo, desdenharia.

    Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s