A verdascagem do sucesso

verdasca.gifO proselitismo do sucesso educativo continua incansável, na falta de coragem política para decretar o fim das retenções, uma medida de último recurso na qual só encontram malefícios.

Desgosta-me que o façam invocando as piores razões, como é o caso do argumento economicista: as retenções custam não sei quantos milhões ao país, dinheiro que poderíamos poupar se todos os alunos passassem.

Primeiro, porque nunca vi uma demonstração clara da forma como se chega a esses números negros do insucesso. Com uma escolaridade obrigatória até aos 18 anos, quer-me parecer que é relativamente indiferente para as finanças públicas que um aluno ande um ano mais atrás ou à frente, quando estão muitos deles destinados, entre os 20 e os 30, a andar a marcar passo entre sucessivos cursos superiores, estágios não remunerados, cursos e formações avulsos e passagens forçadas e mais ou menos prolongadas pelo desemprego. Estes são os verdadeiros custos de uma economia há muitos anos a funcionar abaixo do potencial humano que o sistema educativo, com todos os seus problemas e dificuldades, lhe consegue apesar de tudo fornecer.

Em segundo lugar, porque a verdascagem do sucesso se vira contra os professores: os milhões que se quer poupar despachando os alunos à velocidade máxima para fora da escola é o dinheiro que se pouparia abrindo menos turmas, fechando vagas nos quadros nas escolas e contratando menos professores.

O objectivo da promoção do sucesso deveria ser a melhoria das aprendizagens dos alunos, o que nunca se consegue com menos professores, nem tratando estes profissionais como recursos descartáveis, na base do quantos menos melhor.

Sem mobilizar os professores, melhorar as suas condições de trabalho, valorizar a sua carreira e dar sinais inequívocos de confiança na classe, demasiado causticada por sucessivos governos na última década, nenhuma tentativa de reforma, feita na base da verdasca, terá sucesso a longo prazo.

Mas o menosprezo, quando não o desprezo puro e simples sentido pelos professores, foi uma marca profunda da anterior passagem do PS pelo poder. E dela, ainda hoje, os órfãos do socratismo têm dificuldade em se libertar.

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One thought on “A verdascagem do sucesso

  1. 1- “Mas o menosprezo, quando não o desprezo puro e simples sentido pelos professores, foi uma marca profunda da anterior passagem do PS pelo poder. E dela, ainda hoje, os órfãos do socratismo têm dificuldade em se libertar.”

    Os programas do PS para a educação sempre foram muito fraquinhos. Claro que o caso psicopata da ministra de Sócrates superou toda a borrada feita até aí , e continuou-se………

    Vejam-se as votações dos deputados socialistas (professores) no parlamento sobre professores e escolas e educação no parlamento. Uma vergonha.

    Lamento dizê-lo, mas a esquerda, em geral, é muito conservadora nestas coisas de políticas educativas, ficando-se por clichés sujos e gastos. E os eternos “liceus” e mais as metodologias que consideram , parece, ser da era Victoriana, e da cane (régua).
    A direita, sabemos ao que vem. Neste caso, a Oeste Nada de NOvo. O que não deixa de ser mau. Sabemos ao que vêm.

    2- “Sem mobilizar os professores, melhorar as suas condições de trabalho, valorizar a sua carreira e dar sinais inequívocos de confiança na classe, demasiado causticada por sucessivos governos na última década, nenhuma tentativa de reforma, feita na base da verdasca, terá sucesso a longo prazo.”

    Pois, mas eles não sabem. E insistem……

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