Apreciação da Fenprof ao Perfil do Aluno

logo_FENPROF[1]No final do prazo concedido pelo governo para a discussão pública, sucedem-se as divulgações de pareceres sobre o Perfil do Aluno. Ontem, foi a vez da Fenprof, através de um documento que começa por elogiar a orientação geral do documento:

A FENPROF faz uma apreciação bastante positiva do ”Perfil”, porque este, rompendo com o legado da equipa de Nuno Crato, diverge de forma frontal das soluções neoliberais que têm pautado a política educativa no nosso país nas últimas décadas, nomeadamente ao nível da organização curricular e pedagógica.

O documento assenta numa visão humanista da Educação, em clara oposição à postura tecno-burocrática até aqui prevalecente; regista o conceito de complementaridades no que toca aos saberes e recusa a visão hierarquizada destes, que teve o seu apogeu com o último governo da direita; sedimenta uma perspetiva de inclusão, por oposição a visões elitistas e excludentes implementadas no nosso país pelos arautos do neoliberalismo em educação.

Contudo, os sindicalistas, com razão, advertem: Um bom documento não garante, por si só, as mudanças necessárias.

De facto, não faz sentido, por exemplo, definir dez competências a valorizar e ao mesmo tempo continuar com currículos e modelos de avaliação que privilegiam o Português e a Matemática e, no ensino secundário, a sobrevalorizar as competências susceptíveis de serem avaliadas através dos exames nacionais e as disciplinas sujeitas a estas provas.

Também não é num quadro de condições profissionais insatisfatórias – carreiras congeladas, turmas numerosas, indisciplina, falta de recursos, horários sobrecarregados, precariedade dos professores mais novos e cansaço dos mais idosos – que se irão concretizar as mudanças que o novo Perfil pretende introduzir na vida escolar. Sem melhorar as condições de trabalho dos professores, nem revalorizar e rejuvenescer a profissão, não me parece que existam condições para as mudanças desejadas.

Acrescente-se a esta lista a falta de democraticidade do actual modelo de gestão escolar e o cerceamento da autonomia das escolas pelo centralismo ministerial e, em breve, se se concretizarem as intenções do governo, também pelas autarquias, e pode concluir-se, como faz a Fenprof: uma visão holística e humanista da educação não se compadece com a continuidade de políticas educativas de cariz marcadamente neoliberal.

Finalmente, a Fenprof alerta ainda para a importância do envolvimento e da participação dos professores nesta “mudança de paradigma” na educação. E não se trata aqui de dar mais formação, pois vai muito para além disso: implica construir, com os próprios docentes, as alterações que se pretendem fazer. Proporcionando, para começar, tempos e espaços para reflectir e discutir, no ambiente escolar, as práticas existentes e as mudanças necessárias. Trata-se de perceber que “ninguém muda por decreto” e que não há mudanças eficazes e sustentáveis em Educação sem o envolvimento e a participação activa dos principais agentes educativos – os professores.

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4 thoughts on “Apreciação da Fenprof ao Perfil do Aluno

  1. Qual é o papel do(s) sindicato (s) ? Parece-me que sua função ou objectivos deveria quedar-se em assuntos de natureza estritamente laborais ( condições de trabalho, carreira profissional, salários…) e não “meter a colherada” em questões de política educativa, embora, evidentemente, interessem aos docentes. Pior que extravasar as suas atribuições, é fazê-lo sem possuírem a capacidade, autoridade e massa crítica necessária para emitirem juízos com uma réstia de valor.

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  2. Subscrevo o post .

    Não se muda nada “por decreto”, não se atingem objectivos por decreto, não se avança com professores desmotivados a todos os níveis e isto deverá ser o papel dos sindicatos.

    Quanto a “meter a colherada” em assuntos relacionados com políticas educativas, como escreve a maria, não vejo qual o problema (condições de trabalho e políticas educativas não se relacionam?). Maior problema é os chamados “peritos e experts” que ainda se referem, por exemplo, a “liceus” ,e que de educação leram umas coisas giras e lembram-se da escola do seu tempo, passando por cima de uma massificação enorme do ensino depois de 1974 e de reformas e contra reformas implementadas, falhadas algumas e, em geral, muitas pouco monitorizadas e avaliadas.

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  3. Não me parece que um sindicato de professores tenha menos legitimidade ou capacidade para se pronunciar sobre políticas educativas com reflexos óbvios nas condições de trabalho do que uma associação de pais ou de directores de escolas, por exemplo.

    Num país onde qualquer cientista, economista ou engenheiro chega a ministro da Educação, que habilitações especiais terá de ter uma organização de professores, qualquer que ela seja, para poder opinar sobre assuntos da educação?

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