Suicídio no banco, ou a história contada pela metade

bpi.JPGConsta que a maioria dos suicídios não são noticiados pela comunicação social. A não ser que as circunstâncias em que ocorrem ou a notoriedade das vítimas imponha a divulgação, os media costumam ter, nos restantes casos, o decoro de evitar expor dramas pessoais que, ao serem do conhecimento público, podem incentivar outras pessoas igualmente perturbadas a suicidarem-se também.

Um funcionário do BPI suicidou-se esta sexta-feira nas instalações do banco na rua Braamcamp, em Lisboa, avança o Observador. Porta-voz da instituição bancária garante ao site que não existia nenhum diferendo com o trabalhador.

O incidente deu-se na sexta-feira à hora do almoço. O funcionário suicidou-se com um tiro de caçadeira, a qual foi apreendida pela PSP.

O BPI avança ao Observador que o funcionário tinha 51 anos e tinha feito um pedido de transferência daquelas instalações de serviços centrais, na rua Braamcamp, para um balcão comercial, o qual fora aceite.

No caso deste empregado bancário que escolheu o gabinete do seu chefe para pôr termo à vida, o Observador, e na sua sequência diversos outros jornais que optaram por dar a notícia, estiveram mal. Não pela opção inteiramente legítima de noticiar o que acharam ser de interesse público, mas por contarem da história apenas o que convém à salvaguarda da boa imagem do banco onde o suicida trabalhava.

Se queriam falar do suicídio, deveriam ter investigado também as suas circunstâncias: como Os Truques demonstram, provavelmente iriam encontrar a história, descrita por um colega de trabalho, de um trabalhador moralmente assediado, desconsiderado, humilhado de forma reiterada pelas suas chefias directas e pela própria instituição, que só no suicídio encontrou saída para o seu desespero:

Hoje um amigo com quem trabalhei cometeu o derradeiro acto. Não sei com que dor, com que drama, com que desespero, com que impossibilidade. Soube apenas que deixou a sua vida.
E que soube e fui sabendo mais? Que preparou o momento. Tratou de alguns assuntos de ordem jurídica e levou uma arma de fogo para o local onde a utilizou. Ninguém faz isto sem previamente ter pensado e maturado no assunto. Não é um acto impulsivo. É um acto determinado.
[…]
Nos últimos tempos, no seu local de trabalho, a miséria humana que nos tem habituado sobrepõe-se à moral e oferece desconsiderações sucessivas ao limite de o deixar sem funções durante um mês. Depois disto oferece como recompensa de 25 anos de trabalho soluções que não se enquadram no seu perfil. Pouco importa a história concreta, porque o desfecho deste relato anulam por si qualquer outra dedução.
A uma hora que foi a hora dele, entra no gabinete da sua hierarquia e sabendo da sua ausência, marca a vermelho a alcatifa definitivamente.
Quem pode ser chefe e desconsiderar um ser humano a ponto de receber esta “nota de despedida”?
Quantos chefes há assim? Iludidos, cheios de soberba, convencidos de tudo, capazes de todas a insensatez que o seu orgulho lhes pede, donos de “lições exemplares”…
Cada vez mais vejo fugir a dimensão moral aos homens.

Todos perdemos. Ele a vida, a mãe um filho, o irmão um irmão, a filha o pai, a namorada o seu amor, os amigos um amigo, o seu chefe a sua paz interior. Ninguém, estou certo, ganhará alguma lição.

Descansa com a paz com que te conheci e que era marca da tua vida.

O mundo está carregado de filhos da puta que não merecem que ninguém morra assim por eles.

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