Perplexidade e desconfiança

desconfiadoDepois de o secretário de Estado João Costa já ter considerado que, com as últimas mudanças curriculares, algumas disciplinas ficaram descalças, propor o reforço da História, da Geografia e das Expressões em nome de uma formação integral dos alunos, prometer às escolas autonomia para decidir sobre 25% da organização curricular e comprometer-se com a reintrodução da Área de Projecto e da Educação para a Cidadania, ao mesmo tempo que garantia que nada disto se faria com os alunos mais horas dentro das salas de aula, o ME vem agora declarar solenemente que:

“Não está, nem esteve, a ser equacionada qualquer redução da carga horária das disciplinas de Português e de Matemática, nem tal alguma vez foi afirmado pelo Ministério da Educação”.

“Volvidas duas (três) semanas de debate em torno de um questão que, efetivamente, não se coloca, entendeu o Ministério da Educação ser taxativo quanto à questão do Português e Matemática — que não irão sofrer redução horária”.

Ora bem: como eu não duvido das capacidades intelectuais de João Costa, um académico inteligente, bem falante e, pensava eu, com um discurso minimamente sério e coerente, só posso pensar que nos anda a tomar por parvos.

Como se constrói um currículo mais equilibrado sem retirar horas às disciplinas que mais as ganharam nos últimos anos e que são as de maior peso no horário dos alunos?

Como se conseguem introduzir disciplinas novas sem aumentar a carga horária semanal dos alunos, a não ser tirando tempos às que já existem?

Como é possível prometer autonomia às escolas na gestão flexível do currículo e depois continuar a impor centralmente a definição da carga horária da disciplina A ou B?

Como se pode remeter parte significativa das aprendizagens para o âmbito da articulação interdisciplinar e do trabalho de projecto, e depois ser “taxativo” na definição dos tempos de algumas disciplinas?

A notícia do Expresso deixa estas perguntas sem resposta, pois o ministério, apercebendo-se de que o seu dirigente mais falador já disse mais do que devia, remete-se agora ao silêncio para não se enterrar mais.

Ao que alguns já suspeitavam – que nada disto é para levar muito a sério – junta-se uma sensação ainda mais amarga e perturbadora – eles não sabem o que andam a fazer.

Ou, pior ainda: há agora toda a legitimidade para pensar que, a par do debate público, onde professores, directores, representantes dos pais e outros interessados na agenda educativa vão partilhando as suas opiniões, haverá também uma discussão de bastidores onde quase tudo estará a ser decidido. Forças e grupos de pressão que não se atrevem a vir publicamente defender as suas ideias, no espaço público do debate democrático, estarão a impor a sua vontade cada vez o ministério aceita injustificadamente traçar linhas vermelhas num debate onde tudo deveria estar em aberto.

 

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