Desconfiar dos professores

corrupcao.JPGO SOL apurou que o gabinete do ministro Tiago Brandão Rodrigues prepara-se para proibir que as editoras enviem para as escolas mais do que um manual por disciplina. Só será permitida a entrega de um livro, para que seja analisado durante o processo de escolha dos manuais a adotar.

A decisão da tutela está a chegar aos ouvidos pelos professores através dos representantes das editoras, numa altura em que estão a ser escolhidos os livros para os 2.º, 6.º, e 12.º anos de escolaridade para o próximo ano letivo. «Os representantes das editoras andam nas escolas a dizer que não podem entregar mais do que um manual por disciplina», confirmou ao SOL, o professor Paulo Guinote. 

A decisão está a gerar forte descontentamento entre os docentes ouvidos pelo SOL, que não foram avisados antecipadamente. A instrução terá sido dada verbalmente pela Secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, numa reunião com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) em que participava também o Secretário Geral da Educação,  Raul Capaz Coelho.

Tecnicamente, as restrições à oferta de manuais até têm enquadramento legal. A lei nº 47/2006 proíbe expressamente que sejam oferecidos livros escolares ou outros materiais didácticos aos professores dentro das escolas. Mas não impede que as editoras enviem os manuais para casa dos professores, como já se fazia e provavelmente continuará a suceder, ou que os ofereçam naquelas apresentações em salas de hotéis que se tornaram populares nos últimos anos.

Não é invulgar os professores terem de analisar mais de dez manuais antes de escolher o mais adequado. E a adopção faz-se durante o decorrer do 3º período, enquanto os professores estão plenamente ocupados em actividades lectivas. A distribuição dos manuais a todos os professores impôs-se como uma solução, não para beneficiar os professores, mas para viabilizar uma tarefa morosa, que o ministério ainda mais complica com o preenchimento de grelhas e mais grelhas, permitindo que cada um a vá fazendo no pouco tempo que tem disponível.

Dito isto, a proibição expressa de oferta de manuais nas escolas parece-me uma ofensa injusta e desnecessária aos professores. Mas reveladora. É ridículo pensar-se que um professor se deixa corromper pela oferta de uma manual a que, de qualquer forma, teria direito, depois de ele ser adoptado na sua escola. E é simplesmente estúpido presumir que a oferta de um manual, só por si, influencia alguma coisa, quando essa se torna a prática corrente de todas as editoras, a todos os professores em exercício de funções.

O que esta decisão parece tornar claro é que o sentimento de desconfiança em relação aos professores, antigo e recorrente da parte da administração educativa e dos governantes de turno, não se dissipou no “tempo novo” do governo socialista apoiado pela esquerda parlamentar. Quando para controlar os professores supostamente influenciáveis e corruptíveis não hesitam em invocar uma lei do tempo do socratismo e de Maria de Lurdes Rodrigues, isso é um claro sinal de que os velhos hábitos custam a morrer.

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