A ilha em frente

faial-pico.JPGJá percebi que o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha em frente […].
Raul Brandão (1926)

Muito interessante a reflexão de Joel Neto, hoje no DN, sobre a construção da identidade do povo açoriano. Um processo que, ao contrário do que se pensa, é relativamente recente.

Em muitos aspetos, quando os Açores viram a autonomia consagrada na Constituição, em 1976, permaneciam mais um conjunto de ilhas do que uma região ou sequer um arquipélago. As primeiras conquistas autonómicas datavam já do século XIX, mas circunscritas à perceção de uma restrita elite político-social e, aliás, a duas ou três ilhas (senão sobretudo a uma). Muitas das restantes permaneciam fechadas sobre si, e quando não o estavam deviam as solidariedades às conveniências – as comerciais ou até apenas as de circunstância (que o mesmo é dizer: de geografia).

Para fazer triunfar a autonomia foi preciso, em primeiro lugar, instituir o instrumento político. Foi preciso, depois, criar (ou reforçar) nove portos e nove aeroportos, bem como estabelecer ligações regulares entre eles. Foi preciso fundar uma universidade onde as novas gerações efetivamente pudessem formar-se, livres das despesas de estudar no continente que – mais uma vez – reduziam as perspetivas a meia dúzia de eleitos. Foi preciso mesmo criar uma estação regional de televisão, de modo que, antes ainda de reconhecerem os restantes portugueses, os açorianos pudessem reconhecer-se uns aos outros.

O governo regional, as ligações aéreas, a universidade, a RTP Açores, ajudaram a forjar, no Portugal democrático, uma identidade açoriana incipiente – até então o quotidiano insular era marcado pelo isolamento e a auto-suficiência, com cada ilha vivendo para si própria. E eram mais intensos, em muitos casos, os contactos com o Continente ou as comunidades de emigrantes na América do que com a ilha em frente.

Nos dias de hoje, se os Açorianos se conhecem melhor uns aos outros e se sentem também mais próximos e integrados no todo nacional, subsiste, no resto do país, um escasso conhecimento da parcela mais remota do nosso território e do povo que nela vive. Seja pela distância e os custos pouco convidativos das viagens, o clima instável e caprichoso durante a maior parte do ano, ou o incipiente desenvolvimento turístico, a maior parte das terras açorianas continuam a ser para os continentais, como no tempo de Raul Brandão, ilhas desconhecidas.

Para comprová-lo, basta o exemplo do que vulgarmente se designa por cá como “sotaque açoriano” e que na verdade é apenas uma forma característica de falar típica da ilha de S. Miguel, com muito mais semelhanças com alguns falares da Beira Baixa do que com a pronúncia tradicional das outras ilhas, muito próxima do chamado português-padrão.

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