A aula de Marcelo

marcelo-pedronunes.JPGDeve ter sido interessante a “aula” de Marcelo Rebelo de Sousa aos alunos do antigo liceu onde o Presidente estudou, a actual Escola Secundária Pedro Nunes. No ginásio, para caberem mais.

Não consta que tenha usado powerpoint ou zingarelhos electrónicos, embora nos digam que sem as tecnologias a escola é uma chatice. Mas a malta aguentou firme. E, suprema heresia, não se mostrou entediada e até teve perguntas a fazer a Marcelo, apesar de a sessão ter durado bem mais do que os regulamentares 90 minutos de uma aula “bué secante”.

“O tempo não volta para trás; aproveitem bem cada dia. Às vezes parece uma chatice, que nunca mais envelhecem. Mas vão é ter muitas saudades deste tempo. Os exames são a horas fixas; depois, na vida, os exames são quando menos se espera.”

Aos alunos contou como foram os seus sete anos no Pedro Nunes, onde chegava todos os dias a correr, a queimar a campainha, num pulinho desde a São Bernardo. Falou da Lisboa e do país de então – da ditadura (contou que o pai foi ministro de Salazar), da pobreza generalizada, da mortalidade infantil, das crianças que iam trabalhar aos dez anos depois dos quatro anos de escola obrigatória, dos liceus separados por sexo, das disciplinas de que gostava e das que odiava, de como passava os tempos livres entre o desporto, o snooker e os livros (porque a TV não o marcou, então), dos aviões de papel para ajudar os testes dos outros, dos namoros, das acções de cidadania.

Ali apanhou as mudanças de mentalidades dos finais da década de 60, ali decidiu que queria cursar Direito, um “factor subliminar de vingar o que foi o sonho falhado” do pai, médico que pouco exerceu e se converteu em político. E quase fez ali os testes psicotécnicos para os futuros universitários, avisou que “é mais importante a vocação que o curso” e, na dúvida, perguntem à família ou aos amigos o que devem seguir. “Não há perguntas difíceis, pode haver é respostas incómodas.”

E elas apareceram dos alunos, mas Marcelo soube sempre dar a volta. Defendeu que “tudo é política”, desde “servir os outros” às escolhas no futebol ou ao trabalho numa fábrica que faz o país avançar. E como ele precisa do contributo dos jovens para isso! O Presidente que o é “porque calhou”, prefere ser tratado por “professor”. Porque o primeiro “é cinco anos” e o segundo “toda a vida”. Não se arrepende “de nada”, mas aprendeu a nunca se “auto-avaliar” e tem por princípio “gozar cada dia como se fosse o último e todos os dias aproveitar bem ao máximo cada experiência, cada pessoa, cada situação”. Apesar desta vida cheia, não tenciona escrever as suas memórias nem sobre os primeiros-ministros com quem trabalhou, ou outros chefes de Estado ou de Governo de outros países (recado a Cavaco Silva). “O que passou, passou.” Nem será comentador novamente. “Não fica bem a um Presidente; não é isso que se espera dele.”

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One thought on “A aula de Marcelo

  1. Com tanta pressão com o séc XXI e as novas formas digitais de comunicação, qualquer dia um bom comunicador será algo de muito raro se estiver num espaço onde só a sua presença, postura, voz e gestos consiga manter a comunicação eficaz, sem que para isso sejam necessários gadgets.

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