Velhos do Restelo

restelo.jpgNuma interpretação livre de mais um texto críptico sobre o perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória, resumi num “Estais lixados” as dificuldades que esperam os professores quando tentarem “operacionalizar” todas as mudanças que estão a ser preparadas pelo ME e que, quando tudo estiver suficientemente confuso, serão confiadas à “autonomia das escolas” para que esta cozinhe uma “salsicha educativa” que não só seja comestível como agradável aos alunos, e principalmente, indutora de sucesso escolar.

Pois bem, a minha antevisão das dificuldades que esperam as escolas e os professores e do lavar de mãos do ministério assim que estiver concluído o trabalho de doutrinação pode de alguma forma ser, apercebi-me depois, comparada à atitude do Velho do Restelo: descrente, retrógrado, pessimista e resistente à mudança:

Eu acho que as pessoas ainda não estão bem a ver o que aí vem, esqueçam lá as áreas curriculares solitárias, as aulas tradicionais, a avaliação baseada nos testes, esqueçam isso tudo. Estamos perante uma mudança de 180º no panorama educativo. […]

Mas não será fácil… a operacionalidade deste modelo de ensino interdisciplinar, onde o aluno terá um papel muito ativo, é, na minha opinião, a maior dificuldade à sua implantação. O desconhecido traz desconforto, traz insegurança e os professores detestam não dominar a sua sala de aula, por isso, a Tutela que se prepare, a RESISTÊNCIA à mudança será enorme!

Lamento desiludir o Alexandre Henriques, mas parece-me que ainda não é desta que a revolução educativa intermitentemente anunciada nos últimos vinte anos vai finalmente acontecer. E não é porque eu duvide de que a mudança educativa será necessária e irá suceder, de uma forma ou de outra, ao longo dos próximos anos. É apenas porque, primeiro, a generalidade dos professores não estão motivados para a mudança, segundo, não há mais dinheiro para a educação e tudo aquilo que se quer mudar é dispendioso – tecnologia, equipas pedagógicas a trabalhar em conjunto, ensino individualizado, rejuvenescimento do corpo docente – e, finalmente, também não julgo que existam os consensos políticos e sociais necessários a uma reforma que será um trabalho para durar décadas.

O que pretende a equipa ministerial, liderada neste aspecto em particular pelo secretário de Estado João Costa, será então algo muito mais simples: uma gestão local de parte do currículo, que permita fazer uma gestão mais eficiente dos recursos humanos. Se, pelo caminho, umas interdisciplinaridades, educações para a cidadania e projectos avulsos fizerem milagres na promoção do sucesso educativo, é ouro sobre azul.

Sem perdermos de vista o novo mundo educativo e os gurus da “mudança de paradigma”, às vezes é mesmo o cepticismo do Velho do Restelo que nos pode ajudar a perceber melhor, tanto o momento presente, como o futuro que nos espera.

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