O preconceito contra o ensino profissional

joao-costa.JPGO secretário de Estado da Educação, João Costa, defendeu esta quarta-feira, no Fundão, que é preciso acabar com o preconceito em torno do ensino profissional e encarar esta via de conhecimento de outra forma.

“Portugal ainda não meteu na cabeça que o 12.º ano do curso de pastelaria é tão válido e tão digno como o 12.º ano do curso de línguas e humanidades. Portugal tem de meter isto na cabeça e quem tem de começar a meter isto na cabeça, em primeiro lugar, são as escolas”, afirmou.

Como professor que trabalha “nas escolas” e não num confortável e “iluminado” gabinete ministerial, esclareço o senhor secretário de Estado: desde o início da minha vida profissional que “meti na cabeça” que todos os alunos e todos os percursos curriculares têm a mesma dignidade.

Nas escolas por onde tenho andado não tenho visto “preconceitos”; o que procuramos é que cada aluno faça uma escolha informada do percurso escolar que pretende trilhar após o 9º ano de escolaridade. E se mais não fazemos é porque, muitas vezes, até temos alunos interessados em determinados cursos que, contudo, o ME não permite abrir.

E agora, com a mesma franqueza com que escrevi isto e o mesmo à-vontade com que João Costa nos quer “meter na cabeça” as suas ideias, pergunto: quantos ministros ou secretários de Estado têm, tiveram ou recomendam aos seus filhos a frequência de um curso profissional em vez de um curso científico-humanístico?

Se todos os cursos têm o mesmo valor e a mesma dignidade e se é objectivo deste governo atingir os 50% de alunos do secundário matriculados no ensino profissional, então seria de esperar que metade da prole governamental por lá andasse ou tivesse andado. Coisa em que, provavelmente, nem o mais crédulo apoiante deste governo acreditará. Conviria por isso que o bem-falante secretário de Estado moderasse a demagogia e resistisse à tentação fácil de tomar os professores por parvos.

Promover com seriedade o ensino profissional passa por reconhecer que este subsistema tem vantagens mas também limitações. E só perante cada aluno em concreto, e as suas capacidades, vocações e expectativas, se pode dizer, com algum acerto, qual a via de ensino mais apropriada. Deixando claro, no entanto, que não quero para nenhum dos meus alunos aquilo que nenhum governante quer para os seus filhos, que é empurrá-los para aqui ou para acolá apenas para melhorar estatísticas ou garantir financiamentos.

Pois uma política de verdade passa também por reconhecer o interesse económico subjacente à aposta nos cursos profissionais: é que estes são maioritariamente financiados pelos fundos europeus, enquanto os cursos científico-humanísticos são pagos na íntegra pelo Orçamento de Estado português.

Causticados por anos de austeridade sem fim à vista, destratados por anteriores governos do partido no poder, é algo estreita a margem de tolerância dos professores para este discurso insidioso com que pretendem ganhar-nos para as suas causas culpando-nos do que nunca foi nossa responsabilidade. Aviso solene: da minha parte, não levam nada.

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6 thoughts on “O preconceito contra o ensino profissional

  1. Pronto, de entrevista em entrevista, vamo-nos apercebendo de culpabilizações e chantagens psicológicas.

    O João Costa até que começou por ter umas ideias interessantes. Com o tempo, vai cada vez mais aproximando-se de discursos de Mª Lurdes Rodrigues e da sua (e da sua equipa e demais actores) visão sobre a escola que, para a governante, também era a escola do “futuro”.

    Cuidado. Lembrem-se do passado……

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  2. Discordo completamente. Dou aulas a profissionais e sei muito bem do que ele está a falar.
    Há discriminação sim. E não é pouco. E começa na orientação vocacional.

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    • É complicado generalizar.

      O que vejo é um secretário de Estado a fazer o clássico número de culpar as escolas e os professores das disfuncionalidades de um sistema de ensino secundário completamente subordinado aos interesses do acesso ao superior e, mais recentemente, às necessidades das empresas e às oportunidades de financiamento via fundos estruturais.

      A realidade é esta: os melhores alunos querem ir para o ensino superior, e os cursos profissionais não os preparam tão bem para esse objectivo, sobretudo se forem para as universidades.

      E depois há alunos que não se conseguem aguentar com a Matemática ou a Física dos Científico-Tecnológicos, mas teimam que não querem ir para um profissional, apesar de os professores os aconselharem a isso. Mas como não fica bem falar em preconceito de alunos e famílias, culpamos os professores, certo?

      É esta forma soez de lançar a discussão, tentando criar um sentimento de culpa nos professores “preconceituosos” como forma de terraplanar o terreno para as reformas que querem fazer, que já conhecemos de outros carnavais destes senhores, designadamente do lurdes-rodriguismo. Gato escaldado de água fria tem medo, e antes que engrossem o tom da minha parte levam já o troco.

      Se querem discutir preconceitos, comecem por discutir os deles próprios e os fantasmas da pedagogia requentada dos anos 90 reciclada para servir ao século XXI!

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  3. Mas o gajo não diz que o preconceito é do país?
    E até diz que vão mudar o acesso. Segundo garantiu, o Governo está a trabalhar no sentido de alterar também o peso que as provas de aptidão profissional e exames do ensino científico-humanístico têm no concurso de acesso ao ensino superior, uma vez que corresponde a “um preconceito que existia sobre o ensino profissional”, bem como a uma associação ao “facilitismo”.

    Acho que estás a exagerar.
    Eu tenho uma batalha com a minha directora que diz que há professores que não podem estar no profissional por causa de preparar para os exames. E eu vou ficando a coordenar as equipas dos que mudam todos os anos, enquanto que do outro lado é só facilidades e maravilhas porque os meninos têm aspirações de ir a exame.
    Não acho certo e é problema lá da escola sim.

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    • Não nego os problemas que possam existir, nas escolas, relativamente aos cursos profissionais.

      O que acho é que enquanto não dermos dignidade ao trabalho, os cursos do secundário destinados ao mundo laboral serão sempre socialmente desvalorizados.

      Não é uma questão de atitudes ou de mentalidades, é um problema político.

      E se um político, por razões de estratégia ou pela sua própria sobrevivência, tem por vezes de enganar o povo, já um professor não deve ser convidado, em circunstância alguma, a enganar os seus alunos.

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