A legitimação da praxe

Cerca de 80% dos dirigentes das instituições de ensino superior admitem reunir-se formalmente com as comissões de praxe. A maioria das universidades e politécnicos também permite que estas actividades se realizem dentro das suas instalações. Estes dois factores criam um efeito de legitimação da praxe, conclui um estudo feito por investigadores da Universidade do Porto (UP) e do ISCTE de Lisboa, a pedido do Governo, que é apresentado nesta segunda-feira.

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A conclusão dos autores do estudo é lógica e evidente: se as comissões de praxe vão buscar os alunos à saída das aulas para os levar para a praxe, se as associações de estudantes usam os seus recursos para apoiar essas actividades ditas integradoras, se não há outras alternativas para acolher os novos alunos e, finalmente, se os poucos caloiros que recusam participar são ostracizados pelos colegas, então pouco sentido fazem os lugares-comuns com que se tenta compor a imagem benigna da praxe.

E nem valerá muito a pena invocar os casos, felizmente raros, em que a humilhação, a submissão e a violência praxística provocaram mortes ou acidentes graves. Porque a essência da praxe não está aí, apesar de propiciar abusos que, em situações extremas, podem colocar em risco a vida ou a integridade física das vítimas. Até porque quem praxa sabe que o excesso de violência ou o forçar de situações que provoquem demasiado sofrimento ou constrangimento iriam fazer alastrar, entre os estudantes, o sentimento de repulsa pelas praxes que já existe em boa parte da sociedade portuguesa.

E transformar as praxes mais ofensivas e violentas nos casos de polícia que são verdadeiramente é algo que não interessa a quem defende a perpetuação destas pseudo-tradições: “comissões de praxe”, “veteranos” e até dirigentes estudantis que preferem cavalgar a onda da popularidade fácil entre os seus pares do que tentarem ver um pouco mais além:

A Federação Académica de Lisboa (FAL) recusou numa reunião com o ministro do ensino superior qualquer forma ou tentativa de “policiamento ou legislação” da praxe académica, que defende como reduto estudantil sem espaço para práticas abusivas.

É sintomático que os jovens universitários, confrontados com a necessidade de os poderes políticos ou académicos moralizarem de alguma forma uma actividade perturbadora que parece incapaz de se auto-regular, invoquem a maioridade dos participantes para rejeitar intromissões externas na praxe. Apetece perguntar: se são adultos, porque insistem em comportar-se como adolescentes retardados?

A maior parte das coisas que os praxados são mandados fazer são simplesmente estúpidas e pouco imaginativas. Prevalece o sentimento de superioridade e hierarquia, do estudante que foi praxado e por isso pode agora praxar, transmitindo os valores negativos da submissão, do conformismo e da subserviência. Existem as chamadas praxes de nojo e outras que enojam sobretudo pela coacção psicológica que exercem sobre quem aceita o desconforto e a humilhação como condições para se integrar no grupo. Além das que são simplesmente formas idiotas de passar o tempo.

Perpetua-se uma cultura de grupo que valoriza o estudante cábula e absentista das aulas, o “veterano” que acumula matrículas e repetências. E, havendo o ambiente propício para o efeito, há cursos e instituições superiores onde a praxe tende a prolongar-se pelo ano todo, criando um ambiente de irresponsabilidade e laxismo com efeitos inevitáveis no aproveitamento académico.

Embora os reitores prefiram geralmente assobiar para o lado perante estes problemas, a verdade é que eles revelam um panorama desolador, no ensino superior português, na qualidade da vida académica, do rigor e da exigência de alguns cursos universitários e politécnicos e de uma verdadeira integração dos alunos, que deveria fazer-se através da cultura, do desporto e de verdadeira camaradagem e solidariedade, como sucede nas universidades que se levam a sério.

A realidade é que nas universidades e escolas superiores onde prolifera a cultura da praxe são geralmente escolas que não estimulam os seus alunos e os deixam entregues a si próprios e com demasiado tempo livre. Não são obrigados a ir às aulas, não há comprometimento das faculdades e departamentos com o sucesso académico dos seus alunos, pouco interessa se passam, se chumbam, ou se estão a ter problemas. Em suma, falham naquilo que verdadeiramente integra os alunos e dá sentido à vida de estudante.

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