Dislexias precoces

O temor da avaliação externa, e de que os alunos com dificuldades de aprendizagem não consigam realizar as provas destinadas aos restantes alunos, tem levado pais e professores a requerer que os filhos sejam contemplados com condições especiais na realização das provas, o que implica a sua integração na educação especial e o reconhecimento das suas necessidades educativas especiais.

Claro que, quanto mais cedo se fizerem as provas externas, mesmo que sejam apenas de aferição, mais precocemente irão surgir as referenciações…

Com a realização de provas de aferição no 2.º ano de escolaridade, o que aconteceu pela primeira vez no ano passado, embora com carácter facultativo, emergiu uma realidade que o Júri Nacional de Exames (JNE) classifica como “preocupante”: o número de crianças que aos 7 anos estão diagnosticadas como tendo dislexia ou incapacidade intelectual.

Entre as perturbações mais frequentemente invocadas para solicitar condições especiais, tanto no processo de ensino-aprendizagem como na avaliação, há uma que se destaca: a dislexia. E, contudo…

“continuamos a ter dificuldades na identificação clara do que é a dislexia. Os profissionais que deveriam fazer esta identificação – professores de Educação Especial e psicólogos – encontram-se mal apetrechados ao nível de instrumentos e modelos de avaliação para realizar uma identificação clara da dislexia. Assim, seria recomendável que os alunos fossem acompanhados preventivamente antes de se considerar que esta dificuldade específica na aprendizagem da leitura se considere existente”.

nee.JPGDavid Rodrigues nota que as dificuldades no diagnóstico seguro da dislexia são agravadas pelo facto de se estar cada vez mais a tentar detectá-la numa fase demasiado precoce, quando os miúdos estão ainda a adquirir competências de leitura e escrita. Como distinguir os naturais erros e hesitações, próprios do processo de aprendizagem, de uma perturbação ao nível intelectual que interfere com a interpretação e o uso correcto dos símbolos da linguagem escrita?

Poderemos estar, como alvitra o psicólogo José Morgado, perante um problema de sobrediagnóstico, com os pais e os professores a jogarem pelo seguro e a quererem salvaguardar os apoios e as condições especiais de avaliação a que as crianças só terão direito, na sua vida escolar, mediante o rótulo de aluno com NEE. Só que isto pode ter uma consequência perversa: ao assumirmos, logo aos primeiros reveses, que um aluno não é capaz alcançar determinadas competências linguísticas, podemos estar a limitar o seu potencial. E em idades precoces, um ligeiro atraso  no desenvolvimento de competências cognitivas pode não passar disso mesmo: a criança precisa simplesmente de mais algum tempo para que no interior do seu cérebro se façam os cliques e as ligações que outros da mesma idade já têm.

Sendo a dislexia um problema tão comum como difícil de diagnosticar com rigor, sendo igualmente difícil distinguir entre um aluno que dá erros na leitura e na escrita porque não é capaz de o fazer correctamente de outro que apenas erra porque não se esforça, não é de admirar que tenha vindo a tornar-se a “popular” no diagnóstico de alunos com NEE. Contudo, este rótulo pode ser uma armadilha. É que os alunos disléxicos são obrigados a realizar as provas de exames nacionais sem quaisquer adaptações, a não ser uma relativa benevolência quanto aos erros de ortografia. Mas, para muitos destes alunos, a dislexia pode estar a mascarar problemas mais profundos ao nível cognitivo, o que não é tido em conta quando são obrigados a fazer provas “como os outros”.

Para os professores, tornou-se comum constatar que alguns alunos, catalogados como disléxicos, deparam-se no 9º ano com a obrigatoriedade de resolver as provas nacionais de Português e Matemática, para as quais não estão preparados, enquanto outros colegas, com problemas comparativamente menos graves, têm acesso a um exame a nível de escola feito à medida das suas capacidades.

São incoerências e injustiças de uma lei feita no tempo de Lurdes Rodrigues e Valter Lemos que, medicalizando os problemas de aprendizagem e a organizando a educação especial em função de patologias específicas e permanentes, obriga a classificar os alunos de uma forma que nem sempre permite enquadrar todas as especificidades de cada um.

Anúncios

3 thoughts on “Dislexias precoces

  1. Como é dito na peça, estamos de facto ” perante um problema de sobrediagnóstico” que, por razões óbvias, muito interessa aos docentes de Educ. Especial e aspirantes a. E como são juízes em causa própria, toca a referenciar a esmo que o orçamento de estado financia a festa. Decorrente do aumento exponencial de casos (cerca de 90.0000 actualmente), resulta o ” exército” de docentes de EE ( já irá em 6000), os muitos apoios prestados por psicólogos, terapeutas e afins, horas suplementares de outros professores ( ver Dep, Estatistica do ME).

    Uma breve nota: calcula-se que a taxa de incidência de NEE “verdadeiras” se situe nos 1,8% .Verifica-se que a cifra se eleva a 9 ou 10% na maioria dos agrupamentos. Por que será?

    Gostar

    • O seu comentário levanta questões pertinentes, mas difíceis de responder em poucas palavras.

      Na escola onde trabalho há bem mais do que 1 ou 2% de alunos com NEE. As turmas que os não têm são mais a excepção do que a regra, e isto passa-se em muitas outras escolas do país. Se são alunos indevidamente referenciados? Bom, o ME por vezes também desconfia, mas as sucessivas inspecções mostram que não, que há dificuldades reais em aceder ao currículo e que se não for dada uma resposta ao abrigo da Educação Especial estes alunos estarão condenados ao insucesso, que era o que sucedia anteriormente.

      Mas se formos pelo caminho dos “interesses” é injusto apontar o dedo apenas aos colegas da Ed. Especial. Os outros professores também “ganham”, neste processo, turmas reduzidas, o que permite trabalhar melhor nas aulas e formar mais turmas – logo, há mais horários também para todos os grupos de recrutamento.

      E já que vamos por aqui, que tal referir a verdadeira indústria que está montada, nas grandes cidades, de gabinetes de psiquiatria e psicologia onde se avaliam, nem sempre de forma rigorosa, as dislexias e as hiperactividades, e se certifica boa parte do tal “sobrediagnóstico” precoce?

      De resto, não tenho dúvidas de que uma escola que se diz inclusiva, do século XXI e tudo mais, precisa de psicólogos, terapeutas e outros técnicos especializados. E como já tenho dito, enquanto houver, no nosso sistema educativo, mais professores bibliotecários do que psicólogos, dificilmente me conseguem convencer que há psicólogos a mais.

      Gostar

  2. A dislexia poderia ser minimizada por uma aprendizagem da leitura mais eficiente, com forte incidência nas correspondências grafo-fonológicas (entre a representação escrita e o correspondente oral). É público que a formação em leitura dos professores do 1º ciclo (e mais ainda dos que lá foram parar por ausência de horário no 2º ciclo) é reconhecidamente insuficiente, ao que acresce a insuficiência de professores de apoio educativo. O recurso a professores de educação especial tem servido para a minimizar. Mas não a resolve, não é um professor do 3º ciclo e secundário, com um curso de 1 ano (na melhor das hipóteses), a fazer aquele trabalho.

    Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s