Professorzecos para sempre

pg-verdeEm tempo de Carnaval, Paulo Guinote faz, na primeira pessoa, algumas reflexões muito interessantes sobre os rumos da política educativa, os consensos do regime em torno da educação e a sua própria acção enquanto blogger de referência da chamada blogosfera docente.

Acompanhei as intervenções públicas do Paulo a partir de 2008 e das grandes contestações e movimentações de professores que atingiram o auge nessa altura. Acho que, colectivamente, muito devem os professores portugueses à sua iniciativa, argúcia, capacidade de trabalho, perseverança, dinamismo. E se ao longo destes anos nem sempre estive de acordo com as suas posições, não poderia concordar mais com isto que ontem escreveu:

É essencial que tenhamos sempre a lucidez suficiente para percebermos quando a nossa presença se torna apenas uma forma de legitimação do contrário do que desejamos. Se a decisão de terminar o Umbigo fora tomada há muito e apenas esperava uma data específica, houve momentos que avolumaram a minha consciência de que em Educação existem trincheiras fechadas nas suas convicções, que é impossível desalojar, embora exista um “amplo consenso” em relação a questões que me desgostam profundamente.

Paulo Guinote passa em revista alguns episódios passados, revelando-nos por exemplo que colaborou informalmente com um grupo de trabalho destinado a aconselhar Nuno Crato, até se aperceber que as propostas a apresentar estavam condicionadas pelo que a equipa governativa queria de facto ouvir e pelo que não pretendia que lhe dissessem.

Relembra tentativas quase pidescas do governo PSD/CDS quando, com as costas quentes pela presença da troika e pela imposição da austeridade à força toda, pretendeu condicionar o debate político e a comunicação social de uma forma até então raramente vista. Ou melhor, que terá tido algumas semelhanças com alguns episódios dos tempos áureos do socratismo.

E recorda o embuste que foi um seminário recente do CNE sobre a municipalização da educação, onde as vozes críticas e discordantes, entre elas a de Paulo Guinote, foram notoriamente abafadas.

Nada disto é novo, e basicamente pode reduzir-se ao seguinte: não se reconhece aos professores dos ensinos básico e secundário a qualidade de interlocutores dos poderes públicos na definição das políticas educativas. Os governantes dialogam com autarcas ou donos de colégios, convidam professores universitários e “cientistas da educação” para comissões, conselhos e grupos de trabalho, ouvem directores de escolas e associações de pais. Mas tentam reduzir ao máximo a intervenção dos sindicatos representativos dos professores, reservando-a à discussão de matérias especificamente laborais, como carreiras, concursos, salários.

Ocasionalmente, quando algum professor alcança notoriedade pública, pode até ser convidado para os círculos de aconselhamento ou de influência em torno do poder político. Mas o que se espera não é que o professor dessa forma promovido para enfeitar o ramalhete faça valer a sua própria voz ou defenda as suas ideias e convicções. Muito menos que se assuma como arauto ou representante da classe profissional a que pertence.

Do professor a quem é dada a honra de chegar perto dos círculos ministeriais o que se espera é que se sinta honrado pela distinção e faça o mesmo que muitos outros que prosseguiram a carreira na “5 de Outubro“, na “24 de Julho” ou noutra qualquer dependência ou adjacência do ministério ou das suas (in)d(i)gest(as) delegações: que cumpra o que lhe dizem e faça por agradar, para não ser recambiado de novo para as salas de aula. Confirmam o que digo, também, os valentes e coerentes deputados ex-professores que, ao longo de sucessivas legislaturas, votaram contra os interesses da sua própria classe profissional.

 

3 thoughts on “Professorzecos para sempre

    • Quais actores, estás-te a referir aos sindicalistas?
      Em geral, ou especificamente os da Fenprof?

      Sei que tens justas e fundadas razões de queixa em relação a certos actores, e respeito isso.

      Mas quis focar-me nos protagonistas de uma história que é, no essencial, entre os professores e o poder, e deixei de parte os actores secundários.

      O sindicalismo docente é um tema que me tem motivado pouco a escrever, e quando o fizer provavelmente não vou agradar a quase ninguém. Nem aos sindicalistas, nem aos seus detractores.

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