Gestão escolar: pais e directores rejeitam mudanças

director.jpgO actual modelo de gestão escolar, assente na concentração de poderes na figura de um director eleito por um colégio eleitoral onde professores e funcionários estão em minoria, criado no tempo de Maria de Lurdes Rodrigues é um dos muitos exemplos de como o PS, no poder, consegue frequentemente concretizar as políticas da direita mais eficazmente do que o PSD e o CDS. E a prova é que, se durante o consulado de Nuno Crato mexeram em muita coisa herdada do socratismo educativo, o modelo de gestão, esse, manteve-se de pedra e cal.

Mas nem só os três partidos do “arco da governação” cerram fileiras em torno dos directores. As associações de pais, que ganharam no actual processo um protagonismo que antes não tinham, são também seus naturais defensores.

Jorge Ascensão, da Confederação Nacional das Associações de pais, não vê “nenhuma urgência” em mexer no modelo de gestão das escolas. “Urgente é pensar na organização do trabalho, no envolvimento dos alunos. Para nós, os atores principais são as crianças. Só existe a necessidade da escola e da profissão docente porque há crianças e jovens que precisam desse serviço”, avisa.

Por outro lado, o representante dos pais vê uma vantagem no atual sistema: “É preciso termos uma figura como a do diretor, que seja responsável pelos projetos e resultados. E que assuma os resultados. Às vezes, esses coletivos também servem para desculpar resultados”.

É certo que os colectivos ajudam às vezes a diluir responsabilidades. Mas não é menos verdade que, tanto da parte da tutela como de outros poderes e influências exteriores às escolas, também é mais fácil impor e pressionar quando há um único interlocutor com responsabilidade e poder de decisão.

Já os directores parecem divididos entre os que defendem convictamente a gestão unipessoal e a eleição colegial e os que prefeririam a eleição pelos seus pares. Mas tanto uns como outros parecem de acordo em considerar extemporâneas as iniciativas actuais da Fenprof e dos partidos de esquerda para rever o modelo de gestão escolar.

Inverter esta lógica, considera José Eduardo Lemos, será andar para trás: “Se voltássemos a ter apenas professores e funcionários a intervir na escolha da direção estaríamos a regredir. O atual modelo é democrático: está representada a comunidade educativa, todos os interesses”.

Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, reage com ironia a estes alertas: “Não ponho em causa que haja quem considere que é democrático ser eleito por um pequeno colégio eleitoral, de uma vintena de pessoas, pondo de parte toda a comunidade escolar”, diz. “Mas essa é a opinião do presidente do conselho das descolas”.

A proposta, esclarece, mantém a presença de “representantes dos pais e de alunos do secundário” no novo órgão colegial, que a organização pretende batizar de conselho de gestão, mas não esconde que a representatividade dos docentes passa a ser determinante: “Numa comunidade escolar o peso dos professores tem de ser o maior. Eles é que são os profissionais que vão depois trabalhar no âmbito pedagógico. Têm de ser implicados também no projeto educativo da escola”, reforça. “E muitos diretores também preferem um órgão colegial”.

Manuel António Pereira, presidente da Associação Nacional de Diretores Escolares, confirma: “Pessoalmente, preferia estar à frente de um órgão colegial, eleito por colegas”, assume. Dito isto, também considera o atual sistema “democrático” e não vê urgência na mudança: “A Fenprof tem as prioridades um bocadinho trocadas porque neste momento deveríamos estar a discutir o problema da descentralização”, considera.

Aqui chegados, não posso deixar de reconhecer neste ponto alguma razão ao director. Sem descartar a importância da democratização da gestão escolar, é a municipalização da educação que está na ordem do dia. Ou descentralização, como agora lhe pretendem chamar. Essa é a grande questão a decidir nos próximos tempos. E se já se percebeu que é muito difícil resistir à lógica da captação de financiamentos europeus para a requalificação do parque escolar, que necessita do envolvimento das autarquias nos processos de candidatura, exija-se então que a dita descentralização faça juz ao seu nome: que transfira para as autarquias competências da administração central e não a parca autonomia que as escolas ainda conseguem manter.

Anúncios

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s