Soluções mágicas ou demagogia educativa

rabbithat.gifComeça a tornar-se demasiado confuso o debate sobre as reformas educativas que o ME pretende empreender. Emagrecimento curricular, gestão flexível do currículo, disciplinas semestrais, áreas disciplinares transversais, perfil do aluno, municipalização da educação, de tudo isto se tem falado ultimamente sem que, contudo, se concretize, preto no branco, o que realmente se pretende fazer.

A versão oficial, nas palavras do secretário de Estado João Costa no final da sessão parlamentar sobre educação, é a de que tudo continua em aberto:

“O debate durará o tempo necessário até termos um consenso alargado e a estabilidade necessária”, declarou o secretário de Estado da Educação, João Costa, no final do debate. “Neste momento o que nos interessa é que o debate aconteça, que se tomem as boas decisões, com a participação de todos”, disse o secretário de Estado. Para João Costa, estas alterações só “entrarão em vigor quando houver consensos alargados” porque, sublinhou, o que interessa à Educação “a qualidade do produto”.

Procurando ver um pouco para além do discurso redondo, do palavreado demagógico e da retirada de coelhos da cartola, o que se vislumbra é uma espécie de quadratura do círculo:

  • Trabalhos de projecto interdisciplinares, mas sem mais horas lectivas para permitir que professores de diferentes áreas trabalhem conjuntamente com turmas ou grupos de alunos;
  • Redução global da carga horária curricular dos alunos, ao mesmo tempo que se fazem promessas vagas de reforçar disciplinas que foram prejudicadas com as reformas de Nuno Crato, nomeadamente nas áreas das ciências humanas e das expressões;
  • Gestão local de parte do currículo, ao mesmo tempo que centralmente se vão definindo já novas orientações, como sucede com a ideia de passar algumas disciplinas anuais a semestrais.

A ideia, que vem sendo plantada na comunicação social, de transformar a História e a Geografia em disciplinas semestrais no 3º ciclo, de forma a passarem a ter “mais horas” e os seus professores “menos alunos”, é um exemplo paradigmático de que as mudanças podem não passar de mera cosmética para enganar os menos atentos: o total de horas mantém-se, ou pode até pode diminuir, dando contudo a ilusão de que aumentou, porque se concentra num semestre a carga lectiva do ano todo. E os professores continuam a ter o mesmo número total de alunos, passam apenas trabalhar com metade de cada vez.

Entretanto, vão-se anunciando reduções graduais no número de alunos por turma, recrutamentos e vinculações de mais professores e mais horas para estes promoverem o sucesso dos alunos, poderem trabalhar em equipa e educar para a cidadania. Mas tudo isto sem compromissos com datas ou números. Falta, como diria João Costa, o “consenso alargado”.

Apoiante moderado da solução política que permitiu a formação do actual governo e convicto opositor do rumo educativo definido pelo anterior governo PSD/CDS, não tenho dificuldade em me identificar com a grande maioria dos princípios e linhas de actuação definidos pelo actual ME. Percebo os constrangimentos financeiros que condicionam aquilo que seria um bom programa de governo para a educação. Mas parece-me que a actual equipa está a emaranhar ainda mais o novelo já enredado que herdou de Nuno Crato, em vez de começar, paulatinamente, a resolver os problemas e a remover os obstáculos existentes e a simplificar tudo aquilo que efectivamente complica e perturba o trabalho de alunos e professores.

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