Ainda a redução do tamanho das turmas

turma-grandeA partir dos debates e audições parlamentares sobre as propostas de redução do número de alunos por turma nos ensinos básico e secundário parece estar, aos poucos, a surgir um consenso entre o governo e a sua maioria de suporte parlamentar nesta matéria.

Por um lado, reconhece-se que turmas mais pequenas permitem apoiar mais os alunos e controlar melhor a pequena indisciplina, tornando mais produtivas as aulas e melhorando as aprendizagens. Por outro, também se percebe que, para não desequilibrar o minguado orçamento da Educação, a redução do tamanho das turmas terá de ser feita de forma gradual.

E se há agora algum pudor, que não existia no tempo de Nuno Crato, em defender as alegadas vantagens das turmas grandes, subsiste a tentativa de evitar que se reverta o legado vergonhoso de Crato e das suas turmas de 30 alunos. Joana Mortágua desmonta os três toscos argumentos do cratismo envergonhado:

Comecemos pela tese ceteris paribus, a ideia de que não vale a pena reduzir o número de alunos por turma sem que mais nada seja alterado na forma de ensinar. É um argumento infantil porque sugere que tratamos a redução das turmas como um fim em si próprio. É óbvio que um professor dedica mais tempo a cada aluno se a turma for mais pequena e até se evitam fatores de indisciplina, mas a redução das turmas também é um instrumento para melhores práticas pedagógicas que defendemos. Os benefícios da redução do número de alunos por turma são amplamente reconhecidos pela comunidade educativa e não podem ser isolados.

Outro argumento baseia-se na repetida ideia de autonomia que, coitada, já serviu de engodo para cumprir tantas coisas mas nunca a si própria. É preciso desmentir que sejam os limites máximos e mínimos a retirar às escolas a possibilidade de gerirem as turmas de acordo com as suas necessidades educativas. O principal obstáculo a essa flexibilidade é o controlo de custos, tão caro à direita, que não deixa aprovar turmas que não estejam no máximo. Ainda bem que temos um limite para nos proteger ou alguém já teria reparado que as turmas de 40 alunos são mais “rentáveis”.

O terceiro argumento é um aparente paradoxo, em que as medidas propostas são, simultaneamente, demasiado reduzidas para ter impacto pedagógico e demasiado radicais para serem aplicadas. Esta ilusória contradição só é possível graças ao equilíbrio da proposta, que prevê a aplicação progressiva da redução do número de alunos por turma, de forma a não criar ruturas indesejadas nas escolas nem buracos orçamentais.

O primeiro argumento é o de David Justino e seus sequazes, que dizem que a redução do tamanho das turmas só por si não melhora as aprendizagens. Pois não. Mas com turmas mais pequenas podem-se diversificar e melhorar as práticas pedagógicas. E com turmas grandes isso não é possível por muito que se queira.

A segunda tese é a de autonomistas como Filinto Lima e outros verdadeiros ou falsos ingénuos que não percebem – ou fingem não perceber – que haver um número máximo de alunos legalmente definido para cada turma não tem nada a ver com autonomia. Nem impede que se façam turmas mais pequenas sempre que haja necessidade e condições para isso.

O terceiro argumento remete-nos de novo para Nuno Crato e a justificação para as suas turmas de 30 alunos: também eram só mais dois alunos em relação ao máximo anterior de 28, uma coisa insignificante. Que permitiu, contudo, reduzir milhares de turmas em todo o país e dispensar os correspondentes professores. Da mesma forma que não se hesitou então em poupar dinheiro à custa de alunos e professores, também agora não se deve protelar a redução gradual do tamanho das turmas, até que atinjam a dimensão adequada a uma escola que se pretende inclusiva e promotora do sucesso e a um ensino que se quer, cada vez mais, direccionado para os interesses e as necessidades de cada aluno.

Anúncios

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s