Um perfil para o Homem Novo

newman.pngNa sua crónica desta semana, Santana Castilho atira-se ao pomposo Perfil do Aluno que o ME colocou em consulta pública, visando a sua crítica principalmente o secretário de Estado João Costa, que se percebe ser o mentor deste documento. Pois o ministro, segundo SC, esse limitou-se a subir para o comboio com este já em andamento.

Castilho cai algumas vezes numa retórica que me parece excessiva, e nem sempre evita o terreno resvaladiço de alguma demagogia fácil, pelo que deve sempre ser lido com algumas cautelas. Mas acaba por ter razão na maior parte das contundentes críticas que faz ao documento da equipa coordenada por Oliveira Martins, o “eloquente de múltiplos saberes”.

A questão não é o perfil de saída dos alunos. É o seu perfil de entrada. São todos os problemas trazidos para o interior da escola, cuja solução não lhe cabe, muito menos sem meios nem autonomia. Fixe o que lhe digo. Se por parte dos professores se verificar uma adesão acrítica à sua modernidade bacoca e ao seu piroso homem novo, não exulte. Preocupe-se. Significará isso que a classe atingiu o auge da desistência. Ou da resignação. Escolha a palavra.

SC denuncia a falta de originalidade do documento, que incorpora ideias expressas em textos similares de outros sistemas educativos, da União Europeia ou da OCDE, sem contudo os citar. E alerta para a ideia simplista e perigosa de que é com reformas educativas que combatemos fenómenos como a xenofobia e o racismo que estão a alastrar pela Europa. A verdade é que algumas das reacções mais extremistas e violentas contra emigrantes e refugiados surgem em países que nos habituámos a considerar dos mais cultos e de mentalidade mais avançada da Europa. E com os melhores sistemas e métodos educativos, de eficácia comprovada nos testes internacionais.

Finalmente, a propósito da consulta pública a que este Perfil de Saída está a ser submetido, Castilho entende, e não deixo de lhe dar razão, que de pouco servirá, pois ninguém em seu perfeito juízo contestará os princípios éticos, pedagógicos, sociais e morais em que o documento se baseia. Mas provavelmente – fica o aviso sério! – também poucos professores o levarão a sério.

Ainda o senhor era imberbe e já os professores mais velhos tinham passado por múltiplos programas e conteúdos, objectivos gerais e específicos, unidades didácticas, pedagógicas ou lectivas, conforme a moda, pedagogia por objectivos e objectivos sem pedagogia, ensino centrado no aluno nas semanas pares e nos professores nas ímpares. Quando aquilo a que chama “currículo flexível” se chamou “gestão flexível do currículo”, já lá vão 18 anos, assistiram a estratégias cirúrgicas de remoção de obstáculos para que a rapaziada passasse toda. Mais recentemente resistiram às “competências básicas” doutros operacionais da sua turma e à paranoia dos milhares de metas de Nuno Crato. Depois disso tudo, estão treinados para aguentar as espertezas e os ziguezagues da geringonça educativa e, agora, os seus “perfis de competências”. Genericamente até me parece que se têm deixado embalar pelo seu discurso redondinho. Mas olhe que estão “congelados”, em salários e carreiras, há uma década e as suas pós-modernices não derrogam o aforismo popular: honrarias sem comedorias são gaita que não assobia.

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3 thoughts on “Um perfil para o Homem Novo

  1. Pois. O SC tem dias….é como os interruptores.
    Mas, como dizia a madre superiora na anedota: “Guerra é guerra!” Guerra é guerra!”

    Ou seja, aproveite-se quando SC diz algo higiénico.

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  2. Não concordo minimamente com o artigo. Demagogia pura de quem anda há anos a fazer fretes ao Passos Coelho.
    O tom ultrapassa tudo o que é aceitável de alguém que assina como professor universitário – deve ser da Lusófona.

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  3. O tom da prosa também me pareceu excessivo, sobretudo na forma deselegante como se refere ao ministro. O percurso politicamente sinuoso de SC é conhecido.

    Mas o discurso redondo, cheio de generalidades e de redundâncias, do documento também não me agrada, porque está longe de definir um caminho: dá para fazer com aquilo o que se quiser.

    Não aponta uma única ideia de que se possa discordar mas penso que também não entusiasma ninguém.

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